quinta-feira, 8 de março de 2007

Pintura de Fernando Barbosa


O olhar
Canto I

No princípio está o olhar.
Ocasional e inconsequente olhar de ver,
como se vê o dia, a noite, o automóvel e o pássaro, o cão vagabundo;
como se vê o próprio umbigo.
Sem emoção.

Mas quando se olha, corre-se o risco
de ver,
entre tanta coisa e tanta gente, alguém que estala,
- às vezes rebenta –
alguém que salta à nossa frente e se ilumina, ali aos nossos olhos,
como um fogo de artifício, ponto de luz, inevitável foco
para o não mais distraído olhar que nesse alguém se deixa,
se planta
e se vislumbra,
como o olhar de uma criança que encontra o brinquedo perdido.
Então não mais se olha.
Apenas se vê.
E quanto mais se vê, mais se olha
porque olhar é o primeiro gesto de dizer que a vi.
E que o meu olhar lhe diga que a percebo
- entre tanta coisa e tanta gente –
e a percebendo gosto e gostando a quero.
O olhar aí é a descoberta. O sinal de aviso.
E quando ela se descobre olhada, também vê.
E se quando vir percebe, e percebendo gosta,
olha também.

Canto II

É ela, já se viu!
E, se olhou... meio caminho andado,
- porque andar é preciso -.
Segui-la na multidão,
atropelar os passantes, atravessar com o sinal fechado,
negar a esmola a quem pede, fingir que não se vê o amigo,
esquecer mesmo a hora marcada.
É ela sem dúvida.
Que longos caminhos teremos feito estupidamente.
Quanto tempo perdido para chegar até aqui,
a esta esquina tão comum, num dia como qualquer outro,
neste prosaico começo de tarde?
É ela!
O seu jeito de andar não chega a ser sensual.
Ela desliza e sabe que desliza, com um andar que não usa todos os dias.
Mas sabe que eu vou ali,
Tímido e ardoroso à espera de a encontrar.
Naquele momento ela não vai a lugar algum. Esqueceu-se onde ia.
Está simplesmente na minha mira e anda.
Não anda, dança.
Dança um balet furtivo.
Os seus passos soltos pela rua e pela tarde.
O seu olhar não vê nada. Distrai-se com tudo.
Refreia o passo. Aguarda-me.

Canto III
Um olhar, uma caminhada.
Já me sinto apaixonado como se ninguém tivesse visto antes
e nada tivesse andado.
- Eu sou o João!
- Eu sou a Maria!
Quem já terá visto um sorriso tão bonito?
Quem terá ouvido coisa assim: eu sou Maria?
Apenas um olhar, um nome e um sorriso,
um jeito de andar,
um sorriso e um nome de mulher,
uma mulher, um olhar e um sorriso.
Um jeito de andar.
Apenas só isso?
Maria falava com um timbre de violoncelo, mas não era tudo, não era apenas música.
Enquanto ela falava,
sorria
- então não era sorriso, ela falava -.
Ela sorrindo dizia docemente: eu sou Maria.
- Eu sou Maria.

Poema de Vítor Tomás

Para as Mulheres neste Dia Internacional da Mulher.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Bardaonça com esses gajos. O relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre direitos humanos aponta imensas críticas a Portugal, nomeadamente abusos das forças de segurança, más condições das cadeias, recurso excessivo da prisão preventiva e tráfico de mão-de-obra estrangeira e de mulheres.
Se não fosse lamentável, até podia divertido.
Desde quando é que um país que faz o que faz em Guantanamo, que faz o que faz aos hispânicos e negros residentes nos EUA, onde os polícias utilizam uma brutalidade vergonhosa, para além de muitas outras práticas contrárias aos direitos humanos, tem autoridade para criticar os outros? Ora tenham lá paciência.
Boa malha a resposta do nosso MAI.

Fechem-se ainda mais. A Igreja em vez de se abrir para o Mundo, insiste em fechar-se cada vez mais dentro da sua concha.
O Vaticano vai divulgar no próximo dia 13 de Março um documento do Papa sobre a eucaristia, onde este defende um maior "decoro e sobriedade" nas celebrações.
A exortação apostólica de Bento XVI, que tem por título "Sacramentum Caritatis", propõe diversas reformas litúrgicas nas missas, como a recuperação do canto gregoriano ou a música polifónica clássica, por forma a que o seu uso seja mais generalizado na celebração das missas.
O Sumo Pontífice pretende que sejam excluídas um conjunto de liberdades litúrgicas que foram introduzidas à sombra da reforma conciliar do Vaticano II (1965), como sejam as músicas de origem secular e os instrumentos "inadequados para o serviço litúrgico" (guitarras eléctricas e baterias, entre outros instrumentos).
Mas o que mais surpreende na reforma da "Sacramentum Caritatis" é a solicitação papal para que o latim seja usado com maior frequência nas celebrações (na missa e outros actos litúrgicos), contrariando assim mais uma das disposições do Vaticano II que determinou o uso das línguas vernáculas em todos os actos litúrgicos da Igreja Católica.
Ainda não é público todo o conteúdo do novo documento papal, mas só o facto de "propor" a adopção da missa em latim já merece a nossa contestação, para além de que se pode aferir daqui que o sector mais conservador da Igreja (Sociedade São Pio X, por exemplo, cujos seguidores foram considerados cismáticos pelo próprio João Paulo II) de que Bento XVI é admirador está apostado em dominar a Igreja.
(Vaticano II tem duas ligações diferentes)

Cavaco dá "segundo tiro" em Jardim. O facto do Presidente Cavaco Silva ter promulgado a Lei de Finanças Regionais sem quaisquer reparos já tinha sido visto como um tiro do "sr. Silva" no porta-aviões de Jardim. Claro está que Jardim no seu diário de bordo falou de tudo e de todos, menos do tiro dado pelo "sr. Silva".
Pois bem o "sr. Silva" acaba de lhe dar mais um fogacho.
Marcou para o dia 6 de Maio as eleições antecipadas na Madeira, mas deixou um aviso a Alberto João Jardim: o Governo regional fica “limitado à prática dos actos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos da Região”, sendo que a recomendação de Cavaco Silva ao Governo regional surgiu após o alerta feito pelos partidos da oposição durante a ronda de audiências na semana passada, para os alegados abusos de João Jardim na pré-campanha. Estamos pois, perante um "tiro" que Cavaco só disparou após a oposição ter apontado e desprezando as palavras do artilheiro.

E Marques Mendes o que acha da nota, lida ontem pelo chefe da Casa Civil da Presidência da República, Nunes Liberato, onde Cavaco Silva deixou o seguinte apelo: “Que este acto eleitoral, bem como a campanha que o precede, decorram com serenidade e elevação, e que o debate democrático entre as diversas forças políticas constitua uma oportunidade para o esclarecimento de todos os madeirenses quanto ao seu futuro”.
E já agora o que é que ele pensa do PSD-Madeira ter criticado a ida de elementos da Comissão Nacional de Eleições (CNE) à Madeira, no âmbito das eleições antecipadas, por considerar que a sua visita se trata de uma “vilegiatura que indica conflitualidades”, sendo que no comunicado distribuído no Funchal, o PSD-Madeira salienta que “nunca reconheceu a comissão” porque a sua constituição, sendo composta por representantes dos partidos e vários ministérios, “não lhe garante objectividade”.

terça-feira, 6 de março de 2007

A Independente. Mariano Gago deve intervir já na Universidade Independente. Neste momento, o que está em causa é tão só os alunos, sendo que estes deverão ser distribuídos por outras Universidades, sendo que a Independente deverá ser responsável por todo e qualquer pagamento.
Isto não é só fundar universidades na procura de lucros cegos.
E porque hoje tudo tem uma componente económica importa salientar que com estes casos (não é o primeiro) talvez o Estado vá percebendo que a educação não pode ser objecto de OPAs e que não pode abdicar da golden share que tem no sector.

O líder do PSD propôs hoje a criminalização do enriquecimento ilícito para titulares de cargos públicos, cabendo às autoridades fazer prova da disparidade entre os rendimentos do investigado e o seu património e estilo de vida.
Estou em crer que esta terá sido a proposta mais importante dos ultimos tempos feita por Marques Mendes. É pena que a ideia inicial não seja dele, antes tenha como patrono o ex-deputado socialista João Cravinho.
E já agora quais são os cargos abrangidos por esta proposta? É que eu não gostaria de ver excluídos deste ramalhete os autarcas e os directores gerais para além de algumas outras.

Hoje
1899 - A Bayer regista a aspirina como propriedade industrial;
1980 - A escritora belga Marguerite Yourcenar torna-se a primeira mulher eleita para a Academia Francesa;
2001 - Um juiz federal argentino declara inconstitucionais as leis de amnistia de Ponto Final e Obediência Devida, que impediram o julgamento de mais de mil militares e polícias pelos crimes cometidos durante a ditadura

segunda-feira, 5 de março de 2007

Lá foi a OPA. A Opa proposta por Paulo e Belmiro foi à vida. Para a história fica um ano de propostas e contrapropostas, de guerras surdas pelo meio, de posições de força, enfim fica muita coisa. Agora o que ressalta em primeiro lugar é tão só uma grande derrota da Sonae e uma vitória incontestada de Ricardo Espírito Santo, Berardo, de Granadeiro e Zeinar Bava.
O futuro já ditou a sua lei e que se pode resumir em: a Sonae pode avançar para a PTMultimédia, mas terá de ter muitas cautelas e não vai ser nada fácil.
Mais, a Sonae deixa de ter um parceiro fabuloso que é a Telefónica. Queiramos quer não, a Telefónica só ficou ao lado da Sonae, porque caso esta ganhasse, tinha o caminho aberto para ficar com a Vivo (a operadora móvel do Brasil) a um preço fabuloso. Como é evidente este negócio interessava quer à Sonae, quer à Telefónica.
À Sonae porque realizava de imediato dinheiro que era muito bem vindo face ao negócio. A Telefónica porque comprava a preço de saldo a outra metade da Vivo ficando senhora e mandadora de uma operadora móvel do Brasil, operadora essa que já representa cerca de 30% do tráfego móvel brasileiro.
Era um negócio supimpa para os dois. Azar. Quem tudo quer tudo perde.
Merece destaque a posição do Governo que se absteve, deixando funcionar o mercado.

Por falar em Governo, diga-se que estou com uma enorme curiosidade sobre o sistema de pagamento do lixo e sobre a reestruturação das forças de segurança.
Já não estou com curiosidade sobre a asneira que o Governo vai fazer vendendo uma vasta série de veículos.
Numa altura em que a componente ambiental é de suprema importância, componente essa que vai aliás se repercutir no preço dos veículos, o Governo vai vender uma quantidade enorme de veículos, sendo que a quase totalidade está em péssimas condições. Ora sendo assim o porquê do Governo não os entregar nos centros de abate.
Isto não é só criticar o cidadão, é preciso dar o exemplo e neste caso o exemplo deixa muito a desejar.

Não tenho por hábito dissecar aqui matéria ligada ao futebol. Tenho as minhas preferências clubísticas, mas não passo daí.
Mas este fim-de-semana ocorreu uma situação que não posso deixar passar em claro.
Nos jogos de futebol deste fim-de-semana deveria ser guardado um minuto de silêncio em memória daquele que foi guarda-redes do Benfica e da Selecção Nacional.
Em todos os estádios isso aconteceu, com excepção do estádio do Dragão, onde a claque dos Super Dragões fez questão de assobiar e de entoar cânticos menos próprios para com o Benfica.
Trata-se de uma atitude inqualificável que prontamente foi abafada pelas palmas dos restantes espectadores presentes no estádio e que fizeram questão de dar a saber que não acompanhavam o pensamente daquela claque portista.
Como todos sabemos a problemática das claques ultrapassa o grupo de adeptos que as formam. As claques quer queiram quer não, são um problema do clube e se hoje elas são o que são é porque os clubes as deixaram à solta.
Impunha-se que no sábado o sr. Pinto da Costa sempre tão rápido e verrinoso nas apreciações, tivesse sido rápido a condenar publicamente a atitude dos Super Dragões. E mesmo que não o quisesse fazer pelo Bento guarda-redes do Benfica, deveria te-lo feito pelo Bento guarda-redes da Selecção ou pelo Bento homem que merece o respeito de todos e cada um de nós.

sexta-feira, 2 de março de 2007

O regresso do rapaz. Ontem Paulo Portas, de uma penada, ignorou Marques Mendes, derrubou Ribeiro e Castro e fez-se à aliança com Sócrates.
Mas vejamos melhor a situação e analisemos a falta de credibilidade deste rapaz tão afoito.
Para início coloquemos a questão: o que é que Portas tem hoje que não tinha há dois anos atrás quando abandonou a liderança? A resposta é simples e clara: nada.
Por outro lado importa dizer que a crise que o CDS/PP atravessa teve origem no preciso momento em que Telmo Correia perdeu para Ribeiro e Castro a direcção do partido. E mais essa crise tem culpados e eles são Paulo Portas e os seus apaniguados.
Mas a intervenção de ontem, que ocorreu na sala Fernando Pessoa (coitado do poeta) no CCB, demonstrou mais umas quantas atitudes reprováveis.
Por exemplo, quando Portas falou de Sócrates e do governo fê-lo como se fosse já presidente do partido. Ora isso é uma falta de respeito pelo actual líder e uma enorme falta de ética, factos que nada abonam em favor de quem se diz ter uma diferente conceito de estar na política.
Mas embora isto já fosse suficiente para o descredibilizar, há mais.
Como é que se pode classificar a actual atitude de Portas que se permite desafiar uma direcção que se encontra a meio de um mandato legitimamente concedido pelos militantes, sendo que ele não desafia, quer o seu derrube ainda antes das eleições da Madeira.
Realmente a Portas sobra-lhe em petulância o que lhe falta de democrata.

Portas e o PSD. Esta tentativa de Paulo Portas recuperar a liderança do CDS/PP está a causar preocupação entre as hostes sociais-democratas, aliás os últimos comentários de Rebelo de Sousa sobre a matéria já mostravam isso mesmo.
Eu percebo que a Direcção Nacional do PSD insista, a todo o custo pelo menos para o exterior, em desvalorizar a situação que se vive no CDS mas internamente eles sabem que o regresso de Portas pode tirar visibilidade a Marques Mendes e ainda por cima numa altura em que os críticos apertam lhe apertam o cerco, como foi ontem o caso de Santana Lopes ao tecer um violento ataque à liderançade Mendes.
Claro que Luís Filipe Menezes já percebeu que se Portas assumir a liderança todo o espaço mediático à direita de Sócrates pertencerá a Portas e não ao PSD, e foi por pensar assim que Menezes comentou imediatamente após a declaração de Portas, que o PSD precisa também de um clic.
Veremos no futuro qual a estratégia de Mendes, sendo certo que era conveniente olhar bem para o terreno que pisa porque de um momento para o outro ele cederá sobre os seus pés.

Mais sobre o regresso com Fernanda Câncio hoje no DN.

Estarei com alucinações? O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, revelou ontem no programa "Grande Entrevista" da RTP, estar disponível para se candidatar às eleições autárquicas de 2009.
Então para onde foi a vergonha, a decência, a ética, o que lhe quiserem chamar?! É fantástico o que o poder faz às pessoas.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Será que perante os exemplos da Moderna, da Independente e de outras o Governo ainda pretende entregar a edução superior aos privados?
Vai ser um ver se te avias.
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 1916, pelas 15 horas, nasce no concelho de Gouveia Vergílio António Ferreira, filho de António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira.
Os pais de Vergílio Ferreira emigram, em 1920, para os Estados Unidos, deixando-o, com seus irmãos, ao cuidado das suas tias maternas. Esta dolorosa separação é descrita em Nitido Nulo. A neve - que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco - é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela.
Com 10 anos e após uma peregrinação a Lourdes, entra no seminário do Fundão onde permanecerá durante seis anos. Esta vivência será o tema central de Manhã Submersa.
Em 1932, deixa o seminário e acaba o Curso Liceal no Liceu da Guarda. Começa a dedicar-se à poesia. Entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, continuando a dedicar-se à poesia, nunca publicada, salvo alguns versos lembrados em Conta-Corrente e, em 1939, escreve o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe. Licenciou-se em Filologia Clássica em 1940. Conclui o Estágio no Liceu D. João III (1942), em Coimbra. Começa a leccionar em Faro. Publica o ensaio Teria Camões lido Platão? e, durante as férias, em Melo, escreve Onde Tudo Foi Morrendo.
Em 1944, passa a leccionar no Liceu de Bragança e publica Onde Tudo Foi Morrendo e escreve Vagão J. Na sua vida de professor liceal, há dois momentos fundamentais: a sua estada em Évora (1945-1958) - que entrará para o nosso imaginário através de Aparição - e a sua vinda para Lisboa (1959), onde ensinou no Liceu Camões até à sua reforma.
A primeira fase do seu percurso romanesco, agora retirada da edição da Obra Completa enquadra-se no neo-realismo então vigente. Ainda assim, Vagão J (1946) opera já uma pequena revolução sem consequências: o movimento neo-realista passou-lhe ao lado, e o autor, perante a incompreensão da crítica, recuou e só viria a reincidir muito mais tarde.
Com Mudança (1949) começa Vergílio Ferreira a conquistar a sua voz própria. Aliás, em maior rigor, dever-se-ia dizer que é a voz própria que começa a conquistar o seu autor. De facto, Mudança estava arquitectado para ser um romance neo-realista exemplar (e não deixa de o ser em muitos aspectos) mas é também outra coisa, que posteriormente se veio a interpretar como sendo a deslocação do neo-realismo para o existencialismo. Tal deslocação ter-se-lhe-á imposto inconscientemente no processo de escrita, sobretudo no tratamento do tempo e da figura da infância. Na velocidade do tempo que estrutura o romance e que decorre do modo de representação neo-realista: materialismo histórico e materialismo dialéctico, a figura da infância enquanto queda para o passado e queda tanto mais desamparada quanto esse passado não é apenas uma memória mas sobretudo o sem fundo que fecha e vela o próprio sentido do nosso trânsito pelo tempo, a figura da infância introduz a desaceleração que toda a hipótese de um sentido arqueológico introduz. Não significa isso que essa atenção ao mais original solucione os problemas de sentido, ela desloca apenas as coordenadas da procura. Mas com esse movimento transforma-se também o modo de representação.
É já de uma forma deliberada que Vergílio Ferreira se distancia do neo-realismo nos romances escritos antes de Aparição (1959) mas só publicados depois deste. Em Apelo da Noite (1963) reivindica-se face ao homem de acção, o "crime de pensar "; em Cântico Final (1960) é a arte, como encontro de um "mundo original", de um sagrado ou absoluto agnóstico, que se furta a qualquer compromisso ideológico. Mas é sem dúvida Aparição - que juntamente com A Sibila (1953) de Augustina Bessa-Luís o romance português contemporâneo - que imporá o seu universo romanesco, seja naquilo a que se chamou, não sem verdade, mas com alguma pressa reducionista, o eu existencialismo, seja no seu estilo ensaístico ou filosofante. Tentando descrever a experiência, no limite inenarrável, do aparecimento do eu a si próprio, e circunscrevendo-a dentro de uma problemática decididamente metafísica e existencial, Aparição é o limiar de uma agónica mas sempre deslumbrada interrogação sobre a condição humana. Estrela Polar (1962) e sobretudo Alegria Breve (1965), onde o pathos da sua escrita atinge o ponto de máxima exacerbação mas também de máxima perfeição, além de aprofundarem e completarem a temática de Aparição, introduzem um experimentalismo que terá larga descendência na nossa ficção.
A partir de Nítido Nulo (1972) o tom da sua obra começa a ser matizado pela ironia. É uma ironia que vem daquilo que o desgaste ensina. E o que ele ensina é que toda a verdade se esvazia, toda a evidência se torna opaca, todas as ideias pesam para o lado da morte. O pathos até aí predominante era o era o tom de quem falava do interior de uma evidência estética, de uma Stimmung umbilical. Nunca em Vergílio Ferreira uma árvore provoca náusea ou uma praia com sol induz um crime absurdo. Se há náusea (mas praticamente não a há) ou absurdo (este sim, mais visível), eles não começam logo na facticidade do mundo mas somente na condição humana em si mesma. O mundo apenas é. Experienciá-lo esteticamente é já um limiar de sentido. Daí que os narradores vergilianos se sintam tentados a configurá-lo como uma verdade, existencial e não sistemática, é certo, mas suficientemente segura para se afirmar contra todas as ideologias. Ora o que acontece no "niilismo activo " de Nítido Nulo, no seu "morrer tudo", é tudo envolve também esta hipótese de verdade que os narradores anteriores utilizavam como escudo no combate cultural. O deslizar insensível da aisthesis para o logos é agora difícil, e sê-lo-á cada vez mais. Por isso os romances se começam a distribuir por dois espaços - tempo: um passado onde decorre o diferendo ideológico - cultural, diferendo não só incomensurável como, em última instância (revelada por aquilo que o desgaste ensina), inútil; e um presente de pura afirmação de ser.
O primeiro pólo perderá progressivamente a sua capacidade de engendramento narrativo, o combate que nele se desenrolará é apenas o ruído do mundo, não uma alínea de qualquer história teleologicamente configurada - daí a paralisia da história em Signo Sinal (1979). O segundo pólo, impossibilitado agora de funcionar como " fundamento mítico " de uma macronarrativa, apresenta-se como uma espécie de justaposição de hauikus, de nós de revelação que não constróem o "sentido de um final " mas uma litania de apaziguamento, uma pietas para com aquilo que mais primordialmente somos - um sujeito - casa atravessado por tudo o que vem de todos os pontos cardeais, e todavia lateral a essas múltiplas orientações, sempre não sabendo, como em Para Sempre (1983) ou nas séries de Conta-Corrente (1890 a 1992).
É este não-saber que obriga Vergílio Ferreira ao continuar da escrita e faz que os narradores vergilianos envelheçam como o seu autor. Envelhecer, por exemplo, é passar de filho a pai. De Até ao fim (1987) a Cartas a Sandra (1996), o narrador, entre outras coisas, é um pai a quem o filho morre. O que morre na morte do filho é aquela força que não suporta a suspensão da história e se autodestrói na procura da resposta que não há. Poder-se-ia mesmo dizer que a morte do filho é a prova por absurdo de que a lateralidade axiológica em que se coloca o pai não é simplesmente a desistência do cansaço mas a sabedoria da suplementaridade, seja a do puro possível da verdade branca do mar que move Até ao Fim, seja a da ironia dos contrafactuais ontológicos que se experimenta em Na Tua Face (1993).
Envelhecer é também passar da despesa do tempo à sua reinvenção no absoluto da memória. Mas esta lição (ou condição) proustiana tem em Vergílio Ferreira as condicionantes contemporâneas de uma sociedade tardo-capitalista, aquela em que a redescrição metafórica do que foi não pode já competir com os meios tecnológicos de representação (cinema, TV, vídeo, etc.) e por isso constrói a afectividade do acontecimento puro: " Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça " (Em Nome da Terra, 1990).
Claro que há ainda romance, e até na sua dimensão mais consensual e acidentalmente romanesca, que é a da história de amor. Mas se, na sequência da tradição, também aqui o amor é aquilo que só se sabe depois, diferentemente dela, este depois não é a origem reencontrada mas um frágil presente que se sustenta apenas da escrita do nome amado, como em Cartas a Sandra, romance que deixa incompleto e que foi publicado no ano da sua morte. Vergílio Ferreira morre em Lisboa, a 1 de Março de 1996 e é sepultado em Melo. Passam hoje 11 anos.

Existencialismo
Mas falar de Vergílio Ferreira é falar de existencialismo, essa corrente filosófica que se funda na situação do indivíduo vivendo num universo absurdo, ou sem sentido, em que os homens são dotados de vontade própria. Os existencialistas sustentam que as pessoas são responsáveis pelas suas próprias acções, e o seu único juiz, na medida em que a sua existência afecta a dos outros. A origem do existencialismo é geralmente atribuída ao filósofo dinamarquês Kierkegaard. Entre os seus outros proponentes destacam-se Martin Heidegger, na Alemanha, e Jean-Paul Sartre, em França.
Todos os indivíduos dotados de autoconsciência podem compreender ou intuir a sua própria existência e liberdade, daí que não devam deixar que as suas escolhas sejam limitadas por nada - nem pela razão, nem pela moral. Esta liberdade para escolher conduz à noção de "não-ser", ou "nada", que pode provocar a angústia ou o medo. O existencialismo possui muitas variantes. Kierkegaard salientou a importância da escolha pura na ética e na crença cristã, Sartre procurou combinar o existencialismo com o marxismo.
O pensamento filosófico dos autores existencialistas não se caracteriza nem por uma sistematização racional sobre a vida nem por reflexão abstracta e logicizante acerca do ser humano. O homem é o problema central do existencialismo, não enquanto ser abstracto, com uma natureza definida, mas como um ser concreto, que sofre, que trabalha e ama.
Para os filósofos existencialistas contemporâneos, a existência humana é entendida como algo demasiado fluído e rico e, por isso, escapa a todas as sistematizações abstractas. Assim, para estes autores, acima de tudo a vida é para ser vivida. Faz parte inerente da existência humana o devir, a inquietação, o desespero e a angústia. A existência é algo em aberto, sempre em mudança, e não há nenhum tipo de determinismo ou fatalismo.
A negação de um destino faz da vida um jogo de possíveis entre possíveis. Cabe ao homem, a cada momento, escolher, optar e, por isso mesmo, ele torna-se um ser responsável pela sua vida. A escolha humana traz consigo inevitavelmente a angústia e muitas vezes também o desespero.
Para os existencialistas, o indivíduo não pode ser diluído e apagado num todo, uma vez que cada um é um ser concreto, único e de valor insubstituível. Por isso, nesta reflexão, o homem é sempre entendido como um ser individual e concreto, na sua vida quotidiana, no seu contexto particular, e nunca entendido como uma entidade metafísica e abstracta. Nesta medida, os autores existencialistas são aqueles que colocam a existência do homem no plano central das suas reflexões, como dirá Sartre, a existência precede a essência. O homem à partida não está definido, ele é um projecto em construção, cada pessoa é aquilo em que se torna consoante aquilo que faz.
Em Vergílio Ferreira "o existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer.
Possivelmente gostaríeis ou teríeis curiosidade de me ouvir falar de mim, já que vou sendo insensivelmente investido na qualidade de uma espécie de delegado nacional ou regional do Existencialismo. Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.
Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência. Aí se implica portanto que nenhum questionar se estabelece em abstracto, de fora para dentro, mas antes se retoma a partir da nossa dimensão original, ou seja, verdadeiramente, de dentro para fora." F. Vergílio, Espaço Invisível II

estou de acordo com Erdogan. aquando da formação do governo de Montenegro coloquei reservas na ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho...