27 de fevereiro de 2006

Em primeiro e antes de entrar no meu comentário deixo aqui a definição de esclerose.
A Esclerose Múltipla (EM) ou esclerose disseminada é uma doença crónica inflamatória desmielinizante que afecta o Sistema Nervoso, de etiologia auto-imune.

Etiologia
A causa directa da EM é a degeneração da camada isoladora lipidica de mielina que envolve os axónios neuronais. Esta é provavelmente causada pela destruição pelo próprio sistema imunitário do indivíduo das células gliais que produzem e armazenam essa mielina. A ausência de isolamento eficaz dos neurónios, e da sua sustentação pelas células gliais, leva à degeneração dos mesmos e à perda de função. As regiões afectadas são as do Sistema Nervoso Central (SNC), isto é a Espinhal Medula e o Cérebro. Os nervos periféricos não são afectados, provavelmente porque a reacção imunitária que danifica as células gliais será especifica para os antigénios do tipo das células produtoras de mielina do SNC, os oligodendrócitos que são diferentes das células com a mesma função no Sistema Nervoso Periférico, as células de Schwann.
Um mecanismo possivel: Em individuos com susceptibilidade genética (com genes de HLA DR15 ou DQ6 por exemplo) uma infecção viral no SNC pode levar grandes números de linfócitos T a atravessar a barreira hemato-encefálica. Estes linfocitos então destruirão o virús mas também erroneamente, identificarão antigénios self da mielina apresentados de forma altamente estimulante pelas células gliais danificadas, ou pelos microglios, devido a alguma predilecção das proteinas apresentadoras de antigénios (HLA) de esse individuo para apresentar péptidos da mielina que os linfócitos T reconhecem como não pertencentes ao individuo ou antigénios non-self. A partir daí gera-se uma resposta imunitária TH2 (produtora de anticorpos) às próprias células produtoras dessas proteinas da mielina. A destruição de células gliais leva à libertação de mais proteinas da mielina e maior agressão até que algum mecanismo limitador do sistema imunitário (e.g. os linfocitos T supressore) iniba os linfócitos agressores temporáriamente, levando a remissão. Este mecanismo é suportado pela descoberta de altos valores de anticorpos (gama-globulinas) no liquido cefalo-raquidiano dos doentes.A EM tem predilecção para danificar as vias neuronais que controlam os movimentos musculares, daí decorrendo a maior parte dos seus sintomas.
Manifestações Clínicas
O início pode ser dramático ou insidioso. Os sintomas são diversos e podem ser devidos a pouca ou demasiada excitabilidade das vias, de acordo com o tipo de neurónios, excitadores ou inibidores, que é afectado nessa região. Podem incluir sintomas por falta de função de vias excitatorias como ataxia (andar e movimentos dos braços irregulares e com tremores); movimentos irregulares dos olhos como nistagmus e oftalmoplegia internuclear; defeitos na pronunciação das palavras (disartria); neurite retrobulbar; disfunção sexual e urinária; depressão e dificuldades de memória. Ou devidos à desfunção das vias inibitórias como espasmos musculares; parestesia ou sinal de Lhermitte (sensação de 'choques eléctricos' no pescoço e costas).
A progressão da doença é bastante variável, distinguindo-se três subtipos de EM de acordo com a sua evolução. A maioria dos doentes segue um curso de remissões alternadas com exacerbações. Carca de 10-15% segue um curso mais grave e inexoravelmente progressivo. Em 25% dos casos a progressão é lenta com sintomas moderados.
Epidemiologia
A maioria dos casos é diagnosticada em adultos jovens, sendo raros os diagnósticos em pessoas com mais de 50 anos. Afecta duas vezes mais mulheres que homens. Na Europa os países escandinavos são os mais afectados. A presença da doença num familiar significa possível predosposição genética, havendo 15 vezes maior probabilidade de contracção da condição. Estimam-se mais de um milhão de casos mundiais diagnosticados, dos quais 450.000 na Europa. Em Portugal haverá mais de 5000 casos diagnosticados.
Patologia
As regiões desmielinizadas são localizadas e assumem o aspecto de placas que mais tarde esclerosam. As lesões iniciais caracterizam-se por infiltração de leucócitos mononucleares, em volta das vénulas, incluindo linfócitos, plasmócitos, e desmielinização individual dos axónios adjacentes. Lesões tardias são geralmente de todo um feixe de axónios. Há infiltração de macrófagos e microglia com aspecto de célula de espuma, ou seja que fagocitaram grandes quantidades de lípido, certamente mielina. As lesões variam de localização com o tempo, havendo regeneração da mielina e formação de novos focos de agressão.Um modelo animal da doença pode ser obtido pelo inoculação de proteinas da mielina na corrente sanguinea de cobaias. As células T activadas destes animais causam a doença em outros não inoculados. Este facto fortemente sugere uma etiologia auto-imune para esta condição patológica.
Tratamento
A EM não tem cura e a terapêutica está direccionada para atrasar a progressão e diminuir a disrupção na vida do paciente pelo alivio dos sintomas. A administração de corticosteroides(imunossupressores potentes) é usada em casos de episódios ou relapsos agudos. Outros imunossupressores como os análogos das purinas (azatioprina) também têm tido resultados. A terapia com beta-interferão, que tenta diminuir a resposta TH2 dos linfocitos para uma TH1 (com menor produção de anticorpos) tem tido resultados encorajadores em apenas cerca de um terço a metade dos pacientes. O uso de terapias imunológicas como administração de citocinas poderá ser o campo que gerará uma terapia mais eficaz no futuro, no entanto testes iniciais têm sido desanimadores.
Prognóstico
Sob observação e tratamento médicos apropriados, que evitam complicações como as infecções de alguns orgãos, a esperança de vida dos pacientes é só moderadamente diminuida. A idade em que se iniciaram os sintomas é o principal factor de prognóstico: quanto mais jovem, mais provavel será deterioração mais precoce. Outro factor será o subtipo de EM. Uma minoria poderá não ter um curso progressivo, outra minoria terá um desenvolvimento severo e rápido dos sintomas. Aqueles cujo primeiro sintoma foi a dificuldade visual também têm melhor prognostico que outros que sofreram inicialmente de problemas de coordenação motora dos membros. O principal problema para o doente com EM é a progressiva disabilidade em que se encontra. Só um terço dos doentes será capaz de trabalhar normalmente após 20 anos. A maioria necessitará de utilizar cadeira de rodas para se movimentar antes de 20 anos depois do surgimento dos primeiros sintomas, e alguns antes de 6 anos.
Na História
O primeiro caso descrito conhecido de EM, em termos que apontam quase certamente para esse diagnóstico, foi efectuado pela Freira Holandesa Lidwina de Schiedam (1380-1433) que descreveu a doença de que ela própria padecia desde os 16 anos. Ela escreveu sobre dores intermitentes, fraqueza das pernas e disturbios oculares típicos.A primeira descrição cientifica da EM, que a introduziu como doença especifica reconhecida pela Medicina só foi feita no inicio do Século XIX. Foram os médicos e patologistas inglêses Robert Hooper (1773–1835) e Robert Carswell (1793–1857), e o francês Jean Cruveilhier (1791–1873), publicaram os seus detalhes médicos e ilustrações das suas caracteristicas.No entanto foi em 1860 que o médico neurologista francês Jean-Martin Charcot (1825–1893) com a sintese que escreveu do trabalho dos seus predecessores e à qual adicionou mais observações significativas, levou ao reconhecimento da Esclerose Múltipla (sclerose en plaques no trabalho original) como doença distinta para a Medicina.Algumas Personalidades Afectadas: Santos Dumont, pioneiro da aviação, brasileiro; Heinrich Heine, poeta alemão; Ivalio Iordanov, jogador de futebol búlgaro.Antes do fim do século XIX era impossível diagnosticar um caso de EM, portanto não se sabe que outras personalidades mais antigas poderão ter sofrido da doença.

Porquê isto tudo questionará quem me lê?
Isto tudo porque o CDS, que agora não é PP, mas em breve vai voltar a ser, vai organizar uma série de conferências para assinalar os 30 anos da Constituição da República Portuguesa, que considera ser, em certas áreas, "um factor de esclerose da vida portuguesa".
Disse Ribeiro e Castro (o líder a prazo do CDS e que brevemente vai cair da cadeira, porque o PP já não tem pachorra para ele) um dos exemplos da Constituição como factor de esclerose é o "mito da gratuitidade", nomeadamente na saúde.
E continuou dizendo que a Constituição "tem de se adequar às necessidades do seu tempo" e "que a nossa é uma Constituição que tirou um retrato em 1976 (retrato esse onde o CDS não figura, pois foi o único partido que votou contra) e ignora que a vida económica, a vida social é um filme".
Realmente tudo isto é um filme, um filme onde uns são actores principais cheios de mordomias e que desempenham o papel principal, e outros são os secundários que participam só pela côdea.
Não é a Constituição que está esclerosada, é antes a classe política e os que gravitam na sua órbita.
Que eu saiba não é a Constituição que fomenta a corrupção e o compadrio.
Que eu saiba não é a Constituição que transporta para a luz do dia os lobbies que batem o pé para não perderem mordomias.
Que eu saiba não é a Constituição que diz que a liberdade de imprensa deve ser colocada em causa quer por actos quer por leis.
Que eu saiba não é a Constituição que diz que os organismos públicos podem atrasar o envio de recibos para inclusão no IRS.
Há tanta coisa que a Constituição não diz, mas uns quantos políticos de pacotilha teimam em fazer.
Tratem-se antes os políticos e deixem sossegada a Constituição.

25 de fevereiro de 2006

Monopólio bancário

Após cinco anos de sossego, os bancos voltam agora de novo ao ataque para instalar taxas nas operações feitas nas caixas multibanco.
Os consumidores estão perante um ataque soez por parte de um grupo que ganha muito e paga pouco.
Quando apareceram as caixas multibanco, os bancos fizeram de tudo para incentivar os seus clientes a terem cartão multibanco e a passarem a utilizá-los em vez de irem ao banco. Diziam eles que era do interesse do cliente pelo tempo que poupavam.
É verdade. Mas se é verdade para o cliente também foi verdade para os bancos.
Estes puderam, à custa das máquinas multibanco, reestruturar o seu grupo de funcionários (basta verificar a saída de pessoal e a entrada após a intalação das caixas multibanco) e a diminuição de custos que isso mesmo provocou.
Mas para além deste enorme benefício devemos não esquecer que os utilizadores já pagam parte dos custos de manutenção do serviço Multibanco através da anuidade dos cartões de débito assim como os comerciantes, que desembolsam uma taxa pela utilização dos POS (equipamentos de Multibanco móveis).
Mas não nos fiquemos só pelas caixas multibanco.
Os custos que os clientes pagam pelas operações bancárias pela internet são não só calamitosos mas também vergonhosos. Neste caso pagamos triplamente porque pagamos as taxas das operações, pagamos a electricidade consumida pelo computador e pagamos os custos da internet.
É necessário e urgente que o Governo coloque travão nesta pretensão vergonhosa dos bancos.
Os bancos servem-se do nosso dinheiro e nós pagamo-lhes bem para eles se servirem do que é nosso. Assim não admira que tenham milhões de euros de lucro.

24 de fevereiro de 2006

Uma exposição que merece ser visitada

Não é que seja meu hábito, mas hoje vou fazer duas entradas.
Se a primeira foi dedicada áquele que eu considero um dos expoentes máximos da música portuguesa, esta é consagrada áquela que eu também considero um dos expoentes máximos da pintura. Trata-se de Frida Kahlo.
A exposição está patente a partir de hoje no Centro Cultural de Belém. Antes do CCB a exposição esteve patente na Tate Modern e na Fundacíon Caixa Galicia, em Santiago de Compostela.

Frida Kahlo nasceu em 1907 no México, mas porque gostava de declarar-se filha da revolução dizer que tinha nascido em 1910. A sua vida sempre foi marcada por grandes tragédias; aos seis anos contraiu poliomelite, o que a deixou coxa. Já tinha superado essa deficiência quando o autocarro em que passeava embateu contra um eléctrico. Neste acidente sofreu múltiplas fracturas e uma barra de ferro atravessou-a entrando pela bacia e saindo pela vagina. Por causa disto fez várias cirurgias o que originou que permanecesse muito tempo presa numa cama.
Começou a pintar durante a convalescença, quando a mãe pendurou um espelho em cima da sua cama.
Frida sempre se pintou a si mesma: "Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor".
A sua vida com Diego Rivera, seu marido, foi bastante complicada. Diego tinha muitas amantes e Frida não ficava atrás, compensava as traições do marido com amantes de ambos os sexos. A maior dor de Frida foi a impossibilidade de ter filhos (embora tenha engravidado mais do que uma vez, as sequelas do acidente impossibilitaram-na de levar a gestação até final), o que ficou claro em muitos dos seus quadros.



Meu nascimento

Os seus quadros reflectiam o momento pelo qual passava e, embora fossem bastante "fortes", não eram surrealistas: "Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade". Frida contraiu uma pneumonia e morreu em 1954 de embolia pulmonar, mas no seu diário a última frase causa imensas dúvidas: "Espero alegremente a saída - e espero nunca mais voltar - Frida". Talvez porque Frida não suportasse mais.

Flores Fato

Frida Kahlo foi uma artista única, para muitos é considerada a pintora do século XX. Apesar do seu pouco tempo de vida, deixou-nos obras magníficas e ao mesmo tempo intrigantes.

Algumas obras


Raízes

Auto-retrato com cabelo solto

A coluna partida

Para que os novos conheçam e os mais velhos não esqueçam

Ontem, com muita pena minha, verifiquei que pouca ou nenhuma comunicação social se lembrou de que passavam 19 anos da data em que faleceu Zeca Afonso.
O texto que se segue é a minha homenagem ao grande senhor da música portuguesa e não só que foi José Afonso.



Henri Tabot, Janita, José Afonso e Guilherme Inês. Lisboa 1980 ( Júlio Pereira)


José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro.
Quando o pai, José Nepomuceno Afonso, foi colocado em Angola, em 1930, como delegado do Procurador da República, Zeca Afonso permaneceu em Aveiro por razões de saúde, confiado aos cuidados da tia Gigé e do tio Xico, um "republicano anticlerigal, anti-sidonista. Um homem impoluto".
De 1932 a 1937 José Afonso viveu com os pais e irmãos em Angola, deslumbrando-se com a imensidão africana. A relação física com a natureza causou-lhe uma profunda ligação ao continente africano que se refletirá pela sua vida fora. As trovoadas, os grandes rios atravessados em jangadas, a floresta esconderam-lhe a realidade colonial. Só anos mais tarde, ao exercer a docência em Moçambique, conhecerá a fotografia amarga da sociedade colonial moldada ao estilo do "apartheid" de Pretória
Em 1937 volta para Aveiro, onde é recebido por tias do lado materno, e no mesmo ano parte para Moçambique. Em Lourenço Marques reencontra-se com os pais e irmãos, com quem viverá pela última vez em conjunto até 1938.
Quando voltou para o continente, em 1938, José Afonso foi para casa do tio Filomeno, então presidente da Câmara, em Belmonte. No ano seguinte os pais já estavam em Timor, onde seriam cativos dos ocupantes japoneses durante três anos, até 1945. Foram três anos sem notícias dos pais.
Em Belmonte, Zeca Afonso completou a instrução primária e viveu o ambiente mais profundo do salazarismo, de que seu tio era fervoroso admirador. "Foi o ano mais desgraçado da minha vida", confidenciou. Pró-franquista e pró-hitleriano, o tio de José Afonso levou-o a envergar a farda da Mocidade Portuguesa. Mas com a chegada a Coimbra em 1940, instalado em casa de uma tia devota, as suas pulsões mais íntimas sobrepuseram-se às influências familiares.
José Afonso começa a cantar por volta do quinto ano do Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e a sua voz ecoa pela cidade velha. Os tradicionalistas reconheciam-no como um bicho que canta bem.
Em Coimbra passa pelas Repúblicas, onde conheceu a amizade e a farra académica. Seduzido pela cidade, tem os primeiros cantactos com clubes recreativos, joga futebol na Académica ("Entreguei-me completamente à mística da chamada Briosa") e acompanha a equipa um pouco por toda a parte.
Nas colectividades conhece "gajos populares", entre os quais Flávio Rodrigues, que admira como exímio tocador de guitarra, para si superior a Artur Paredes. Inicia-se em serenatas e canta em "festarolas de aldeia. Um sujeito qualquer queria convidar uns tantos estudantes de Coimbra, enchia-lhes a barriga e a malta cantava..."
Como estudante integrou várias comitivas do Orfeão Académico de Coimbra e da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, nomeadamente em digressões pelo Continente e por Angola e Moçambique. O fado de Coimbra lírico e tradicional era superiormente interpretado por si. A praxe académica e a boémia encheu-lhe tardes e noites gloriosamente coimbrãs.
É o tempo das boleias e da capa e batina ("Porque um tipo de capa e batina é rei das estradas"), que lhe permite os primeiros contactos com os meios sociais miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo, fonte de inspiração para a sua balada "Menino do Bairro Negro".
José Afonso foi envolvido pela lenda coimbrã, com o encantamento das suas tradições, que simultaneamente o atraiam e causam repulsa.


Em 1958 José Afonso grava o seu primeiro disco "Baladas de Coimbra" enquanto acompanha o movimento em torno da candidatura presidencial de Humberto Delgado. Mais tarde grava "Os Vampiros" que, juntamente com "Trova do Vento que Passa", escrita por Manuel Alegre e cantada por Adriano Correia de Oliveira, constituem um marco fundamental da canção de intervenção e de resistência antifascista.
Em 1964 parte para Moçambique. Professor de liceu, desenvolve uma intensa actividade política contra o colonialismo, o que lhe traz problemas com a PIDE e com a administração colonial. Mais tarde regressa a Portugal onde é colocado como professor em Setúbal, mas posteriormente é expulso do ensino. Para sobreviver dá explicações e grava o seu primeiro LP, "Baladas e Canções".
Em 1967-70, Zeca protagoniza uma intervenção política e musical ímpar, convertendo-se num símbolo da resistência. Várias vezes detido pla PIDE, mantém contactos com a Luar, PCP e esquerda radical. Em 69 participa no 1.º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat" em Paris e empenha-se fortemente na eleição de deputados à Assembleia Nacional da CDE de Setúbal, gravando também o LP "Cantares do Andarilho", recebendo o prémio da Casa da Imprensa pelo melhor disco do ano, e o prémio da melhor interpretação. Alvo de censura José Afonso passa a ser tratado nos jornais por Esoj Osnofa!
Com os arranjos de José Mário Branco, em 1971, edita "Cantigas do Maio". É neste álbum que surge "Grândola Vila Morena" que se tornará um símbolo da Revolução de Abril. Desde então Zeca participa em vários festivais. É publicado o livro "José Afonso", coordenado por Viale Moutinho. É lançado o LP "Eu vou ser como a toupeira". Em 1973 canta no III Congresso da Oposição Democrática e grava "Venham mais cinco".
Após a Revolução dos Cravos, participa em numerosos "cantos livres" e grava o LP "Coro dos Tribunais", onde conta com a colaboração de Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino e José Niza, entre outros. Em 1975 canta em inúmeros espectáculos de dança e lança "Com as minhas tamanquinhas".
Em 1976 apoia Otelo Saraiva de Carvalho na candidatura à presidência da república. Em 1981 Actua no Theatre De La Ville de Paris, compõe a música de "Fernão Mendes" para a "Barraca" e grava dois LPs "Enquanto há força" e "Fura fura".
Em 1985 José Afonso já se encontra doente. O Coliseu de Lisboa é o palco do seu último espectáculo. As homenagens multiplicam-se e é condecorado com a Ordem da Liberdade. Já muito enfermo, em 1985, apoia a candidaduta de Maria de Lourdes Pintassilgo à presidência da república. É editado o seu último disco "Galinhas do Mato".
A 23 de Fevereiro de 1987 morre no Hospital de Setúbal.

23 de fevereiro de 2006


Passam hoje 19 anos do falecimento
de Zeca Afonso
É a loucura total

A ser verdade o que se segue (eu não tenho razões para crer que é mentira), atingiu-se o patamar mais baixo da decência.
Na semana seguinte às buscas na redacção do diário "24horas" - na sequência do caso "envelope 9 - chegaram à redacção deste mesmo diário uma acusação do Ministério Público (MP) de um artigo com quase um ano e de uma notificação do Ministério das Finanças referente a Jorge Van Krieken.
A acusação do MP recai sobre Pedro Tadeu porque este escreveu, em 21 de Maio de 2005 ("Notas do dia") a propósito da condenação de duas funcionárias da Procuradoria (Cristina Maltez, a quatro anos e meio de prisão por burla agravada e Teresa de Sousa, a quatro anos e seis meses por corrupção, violação do segredo de justiça e tentativa de extorsão) " Mesmo na Cova da Moura não parece que haja tanto bandido por metro quadrado."
A PGR considerou este comentário injurioso e mandou abrir um processo-crime - sem dedução de indemnização cível. A procuradora da República Fernanda Pego concluiu que, "com tal afirmação, o arguido quis passar para a opinião pública a imagem de que na PGR existia maior número de funcionários e magistrados com práticas ilícitas". Como tal, acusou Pedro Tadeu de ofender a credibilidade da PGR, e arrolou como única testemunha do processo o procurador-geral da República, Souto Moura.
Já a notificação do Fisco pede ao "24 horas" que esclarece qual a ligação contratual entre o periódico e o jornalista Van Krieken (co-autor do artigo do envelope 9).
Será coincidência? Se é, trata-se de uma estranha coincidência.
Se não é coincidência, estamos perante um caso de perseguição pura e dura a um órgão da comunicação social, o que se me afigura muito mais grave.
Estes "assaltos" à liberdade de imprensa são demasiado perigosos e alguém com responsabilidades neste país deve de imediato por cobro a estas situações.
Quanto ao facto de Pedro Tadeu ter ofendido a credibilidade da PGR deixem que vos diga que para por em causa a credibilidade da PGR basta e é tão só necessária a própria PGR.

Mas este caso poderá ser só a ponta do iceberg.
Quero com isto dizer que as alterações que irão ocorrer no Código Penal, poderão representar uma machadada séria na investigação jornalística.
Sobre isto mesmo escreveu Mário Bettencourt Resendes no DN de hoje. Deixo-vos o site para lerem: http://dn.sapo.pt/2006/02/23/opiniao/cuidado_eles_andam_ai.html

22 de fevereiro de 2006

Se fosse eu?!

Um deputado do PSD, eleito pelo círculo do Porto, foi interceptado na auto-estrada, na zona de Coimbra, a circular a mais de 200 quilómetros por hora. O auto está no Governo Civil de Coimbra, ao qual Ricardo Almeida, de 31 anos, fez um pedido especial no sentido de lhe ser perdoada a apreensão da carta de condução.
O deputado justificou-se dizendo "Reconheço que, às vezes, ultrapasso os limites de velocidade, mas isso é porque sou um deputado que cumpre horários. Não sou como outros que não chegam a horas às reuniões".
Perante esta justificação, apetece perguntar ao sr. deputado: será que temos um letreiro na testa com a designação de estúpidos?
Mas o caso não fica só por aqui. Vai mais longe.
O "deputado voador", como é conhecido nos meandros policiais, já foi autuado pela Brigada de Trânsito de Aveiro, Guarda, Leiria e Lisboa, pela PSP e pela GNR. Do seu "currículo" constam transgressões cometidas ao volante de pelo menos quatro carros distintos. Mas nenhum deles registado em nome de Ricardo Almeida.
Surpresa das surpresas: em quase todas teve a "sorte" de ver os processos arquivados.
Há pelo menos quatro multas que foram arquivadas por prescrição na entidade autuante. Isto significa que quem levantou o auto reteve-o durante pelo menos um ano em seu poder, sem o enviar à Direcção-Geral de Viação (DGV). Só por excesso de velocidade, o deputado tem pelo menos seis multas no "currículo" (quase todas "graves" ou "muito graves"), sem contar com a "muito grave" que aguarda despacho de decisão no Governo Civil de Coimbra. A mais grave de todas foi "arquivada por decisão de prescrição". Trata-se de uma multa levantada pela BT de Aveiro, em Junho de 2004, que o Governo Civil daquele distrito decidiu arquivar.
Mas também há arquivamentos de multas de Ricardo Almeida por decisão do tribunal e outras por decisão de delegados regionais da DGV.
Há uma "infracção grave", por excesso de velocidade, que foi "arquivada por prescrição enviada ao infractor". Quer isto dizer que durante o processo de instrução, na DGV, foram ultrapassados os 18 meses que a Lei então em vigor determinava como prazo limite para a prescrição (com a nova Lei, o prazo aumentou para 30 meses).
Pois é, fosse eu e já estava sem carta, sem carro, já tinha ido a tribunal e o mais que fosse, mas como é o sr. deputado que, afinal só prevarica para chegar a tempo ao plenário, ainda continua impunemente a conduzir.

E por falar em políticos

Ao que parece a Câmara Municipal de Ourique está totalmente insolvente
Quer isto dizer que o seu anterior presidente, Raul dos Santos, gastou o que tinha, o que não tinha e o que nunca iria chegar a ter.
As dívidas são muitas e para todos os gostos e quando falo de gostos falo seriamente, pois ao que consta existe uma das dívidas é de dois mil contos e diz respeito a... chocolates (possivelmente comprou alguma empresa de chocolates e ninguém sabe).
Face a este descalabro apetece perguntar: o que é que se faz a um artista destes?
Infelizmente a resposta é simples e curta: nada porque o artista é deputado e tem imunidade.

Falando em Câmaras

Sabiam que o popó que Santana Lopes comprou para a Câmara Municipal de Lisboa vai novamente a leilão?
O Audi A8 4.2 V8 Tiptronic Quattro, de 2003, custou novo 23.400 contos.
A 16 de Janeiro do corrente foi à praça por 12.500 contos.
No dia 14 de Março irá novamente à praça, mas desta vez por 11.250 contos, ou seja menos de metade do que custou.
Ainda gostava de saber o porquê da compra de tal viatura e quantos quilómetros é que Santana Lopes fez nele.

17 de fevereiro de 2006

Esperavam o quê?


http://www.freethefive.org/multimedia/photos/slides/guantanamo.html

A Casa Branca declarou ontem que o novo relatório em que a ONU acusa os Estados Unidos de tortura no campo de detenções de Guantanamo, base norte-americana em Cuba, é um descrédito para a organização.
As palavras de Scott McClellan, porta-voz da Casa Branca, foram «Creio que a ONU se desacredita quando uma equipa como essa se precipita para fazer um relatório sem ter examinado os factos, retendo apenas alegações».
Claro. Os senhores da Comissão são uns ceguetas, não viram que Guantanamo é uquase um hotel de cinco estrelas e nós somos todos parvos e acreditamos no tal sr. McClellan.
A ONU só é boa quando actua a favor do poder americano, aliás quando não actua eles próprios vetam no Conselho de Segurança.

Se dúvidas houvesse sobre Guantanamo, bastaria ver as atrocidades cometidas em Abu Ghraib, para se ter a certeza de que na base situada em Cuba as coisas não devem ser melhores.
Sobre Guantanamo é ver:

http://www.articolo11.org/modules.php?name=AvantGo&file=print&sid=716,

http://alfatihoun.edaama.org/Fichiers/Afghanistan/Guanta/web/Afghanistan%20prisoners%20guantaII.htm,

http://www.amnestyusa.org/magazine/tortured.html,

http://www.capperi.net/gfuantanamo.html,


Valha-nos isso

Uma antologia sobre a obra de Fernando Pessoa publicada em 1945, contendo poesias seleccionadas por Adolfo Casais Monteiro e uma carta do poeta explicando a génese dos seus heterónimos, acaba de ser reeditada pela Editorial Presença.
Intitulada «Poesia de Fernando Pessoa», a obra reúne poesia assinada pelo poeta e pelos seus heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Inclui ainda «Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro» e a «Carta de Fernando Pessoa Sobre a Génese dos Heterónimos» dirigida também ao poeta Adolfo Casais Monteiro.
A reedição da obra, segundo explicou a Editorial presença e que tinha sido publicada há sessenta anos pela Editorial Confluência, prende-se com o seu «inegável valor histórico» para os estudos pessoanos.
O poeta Adolfo Casais Monteiro, natural do Porto, viria a naturalizar-se brasileiro em 1954 depois de ter sido demitido da docência no ensino liceal por motivos políticos. Inserindo-se no modernismo português, da sua obra poética ficaram livros como «Confusão» (1929) e «Noite Aberta aos Quatro Ventos» (1943).
Destacou-se sobretudo como ensaísta, deixando contributos importantes para o estudo de Fernando Pessoa e do grupo que colaborou com a Presença, revista que Adolfo Casais Monteiro também dirigiu.
Na introdução desta obra, agora reeditada, o autor sustenta que o «segredo» de Fernando Pessoa foi ter transformado os pensamentos em emoções.
Entre os poemas da antologia encontram-se «Intervalo», «Autopsicografia», «Chuva Oblíqua» e «Poema em Linha Recta».

16 de fevereiro de 2006

Mudança de agulha

Voltemos ao último comentário de ontem.
A investigação que o Ministério Público conduz ao caso do "Envelope 9" do processo Casa Pia mudou de agulha. Esta é a conclusão que se pode tirar dos acontecimentos de ontem.
A investigação está mais virada para a divulgação pública do conteúdo das cinco disquetes do que no apuramento de responsabilidades para o facto de registos de chamadas de vários números de telefones de altas figuras do Estado constarem no processo. Aliás o despacho que autorizou a busca ao "24 Horas", referencia apenas o crime de acesso indevido a dados pessoais.
Ora isto leva-nos a pensar que para o Ministério Público a inclusão dos registos das chamadas de tais números de telefone nos ficheiros deveu-se a um lapso técnico da Portugal Telecom, e que os magistrados que conduziram a investigação do processo da Casa Pia (João Guerra, Cristina Faleiro e Paula Soares) são alheios a tudo isso.
Mas, e para além desta conclusão que podemos retirar, muitas outras questões se levantam:
- que eu me lembre o sr. Presidente da República pediu ao sr. Procurador que inquirisse como foi possível aqueles dados chegassem ao processo, ora, o saber como a informação chegou ao jornal é um ligeiro desvio ou passou a ponto fundamental, fazendo-se tábua rasa da questão inicial?
- o que ontem aconteceu só se verificou porque o inquérito tem um mês e não havendo nada para mostrar é necessário criar muito fumo mesmo que o lume esteja apagado?
- esta acção tem alguma coisa a ver com o facto de no início desta semana ter Souto Moura afirmado que a "investigação vai levar o tempo que foi necessário", ao que o ministro da Justiça, Alberto Costa, reagiu e lamentou que o inquérito ainda não tivesse terminado e o juiz desembargador Eurico Reis ter acusado o PGR de "leviandade" por ainda não ter apresentado resultados? São estes os resultados?
- será que esta acção é uma vingançazinha por o jornal ter dado à estampa o que deu?
- a Constituição e a Lei de Imprensa não protegem os jornalistas? Como é que se apreende computadores e agendas de jornalistas? Não está a Justiça a actuar à margem da lei?
- uma rusga que ocorre um mês depois dos factos? Porquê? É para desvirtuar ainda mais a Justiça em Portugal?
Muitas outras questões seriam passíveis de colocar.
Mas o que verdadeiramente importa referir é que mais uma vez a culpa da violação do segredo de justiça vai morrer solteira e que é mais um inquérito igual aos anteriores.

Ainda dentro da Justiça

"O juiz-desembargador Eurico Reis criticou o Conselho da Magistratura acusando-o de usar «dois pesos e duas medidas» na sequência das duas repreensões que recebeu por parte da instituição após ter defendido a demissão do Procurador-geral da República.
Em declarações à TSF, o juiz da Relação de Lisboa admitiu que a sua opinião não foi técnica mas política em que usou uma «expressão que foi entendida como excessiva».
«Eu disse que devia ter vergonha e que se devia demitir antes que demitissem. Relativamente a essas declarações, o Conselho fez um processo sumário, não houve hipótese de apresentar testemunhas para justificar as minhas declarações e foi-me aplicada uma repreensão registada», explicou.
Eurico Reis considera que esta sanção foi-lhe aplicada contra o que está estabelecido, uma vez que o processo que lhe foi movido não pode resultar numa repreensão registada, não podendo o Conselho ser instrutor e juiz do processo, algo que é inconstitucional.
O juiz denunciou ainda a existência de um «entendimento de que algumas pessoas estão acima de crítica», qualificando-o de «resquício de antes do 25 de Abril».
«O Conselho Superior de Magistratura tem critérios excessivamente subjectivos. Não sou a única pessoas que tem processos disciplinares por fazer críticas ao funcionamento do sistema. Representantes do sindicato dos juizes em termos formais falaram como eu falei mas não houve qualquer processo disciplinar contra eles», concluiu."(TSF)
Temos ou não temos razões para estarmos preocupados com a Justiça em Portugal.
Qual é a independência de que falam os sindicatos dos magistrados?
Alguma coisa terá de ser feito e muito rapidamente, caso contrário...

15 de fevereiro de 2006

Eu já sabia

Quando foi despoletado o caso do "envelope 9" eu disse neste mesmo espaço que no final do inquérito (que era para ser rápido, lembram-se...) um dos culpados ainda seria o "24horas" e os jornalistas.
Falhei por pouco.
O jornal ficou incólume (até ver), mas os jornalistas não escaparam.
Joaquim Eduardo Oliveira, Jorge Van Kriken e Pedro Tadeu foram constituídos arguidos por «acesso indevido a dados pessoais», na sequência das buscas efectuadas ao início da tarde na sede do «24 Horas», em Lisboa.
Durante a busca, que durou cerca de duas horas, as autoridades apreenderam o computador de Joaquim Eduardo Oliveira. O jornalista e um técnico informático do jornal acompanharam os investigadores até às instalações da PJ, onde será feita uma cópia do disco rígido do computador, que ficará selada e à guarda de um juiz.
Que pena eu não acertar assim no Euromilhões! Dava um jeitaço.
Depois admiram-se

O ministro italiano para a Reforma Institucional, Roberto Calderoli, da Liga do Norte, anunciou que mandou fazer t-shirts para usar e oferecer com os «cartoons» do profeta Maomé. A iniciativa não pretende ser uma provocação, mas sim um «convite ao diálogo verdadeiro».
Calderoli, que já na semana passada disse que o Papa Bento XVI devia apelar para uma cruzada, realça: «Há que acabar com isto e com a fábula de que faz falta procurar o diálogo com esta gente. Eles só querem humilhar-nos», insurgiu-se.
«Felizmente na Europa, há ainda dirigentes como o chanceler austríaco Wolfgang Schuessel que dizem que nós, europeus, não abandonaremos os nossos modelos de vida. Porque é preciso acabar com esta tendência de baixar as calças e com as distinções hipócritas entre o Islão terrorista e o Islão pacífico», exortou.
Pouco depois de dar a conhecer esta iniciativa, Calderoli reconheceu ter recebido uma chamada do primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi, para que revisse a sua atitude.
Calderoli replicou que o seu anúncio e a sua decisão de usar as t-shirts era a título pessoal e não representava nem a opinião do primeiro-ministro nem a do Governo.
O ministro é conhecido em Itália pelos comentários e acções extremistas e populistas que vão desde a sua oferta de 25.000 euros como recompensa a quem der informação sobre os assassinos do empregado de uma gasolineira até à sua posição a favor da castração química dos violadores.
Calderoli, cujo partido defendeu durante anos a independência da Padania, no norte de Itália, antes de converter-se numa formação federalista, foi descrito a semana passada como «racista, machista e hooligan embriagado», depois de tentar desconsiderar a repórter israelita Rula Jebreal, numa programa de televisão chamando-a «senhora bronzeada».
Isto é nada mais nada menos que uma provocação gratuita e sem qualquer nexo.
Sou inteiramente a favor da liberdade de expressão, também se o não fosse não estaria presente neste espaço e a escrever como escrevo.
Portanto e por ser assim não me causa qualquer transtorno a publicação de caricaturas, sejam elas de Maomé, sejam elas de Jesus Cristo.
Mas também por ser assim é que não aceito o que aconteceu posteriormente à 1.ª publicação das caricaturas. E não aceito o que se verificou nos países islâmicos, como não aceito o que se passou no Ocidente.
Se nos países islâmicos se verificou uma violência inusitada e a despropósito, no Ocidente optou-se por republicar as mesmas caricaturas, tecer comentários imbecis e, por fim (será que é o fim?) estampar as caricaturas em camisolas.
Muito se tem praguejado contra os actos dos islâmicos, mas eu gostaria que os portugueses se lembrassem do que aconteceu em Portugal (e somos um país pequeno) aquando do filme "Je vous salue Marie", da caricatura do Papa com o preservativo no nariz, ou até mesmo do brado que deu "A última tentação de Cristo".
É importante que tudo seja analisado, porque fundamentalistas há-os em todo o lado.

Ainda no Oriente

E porque falamos de Ocidente e Oriente queria aqui lembrar que:
- Novas fotos de tortura no Iraque. O canal australiano SBS divulgou esta quarta-feira mais fotografias chocantes de tortura. Imagens mostram tropas norte-americanos alegadamente a torturar prisioneiros iraquianos.
A primeira imagem mostra um soldado norte-americano de joelhos em cima de um prisioneiro iraquiano nu. Ao lado do prisioneiro está uma poça do que aparenta ser sangue ou fezes.
Outras imagens mostram alegadamente um homem com a garganta cortada, outro homem com graves ferimentos na cabeça e um terceiro com a cara coberta de fezes.
Todas as imagens, divulgadas pelo canal noticioso australiano SBS, mostrarão prisioneiros iraquianos a serem torturados.
A estação televisiva australiana afirma que estas fotografias foram tiradas na mesma altura em que as imagens das torturas praticadas na prisão de Abu Ghraib em Bagdad foram divulgadas. Segundo a SBS, estas novas imagens provam que o abuso levado a cabo pelos soldados norte-americanos era muito mais generalizado do que se pensava.
- Estados Unidos estudam ataque ao Irão. O comando central norte-americano já identificou alvos e está agora a analisar questões logísticas, tendo em vista uma operação militar. O objectivo dos Estados Unidos, segundo publicou o "Sunday Telegraph", é acabar com os planos do Irão de desenvolver armamento nuclear.
Segundo o jornal, os estrategas, que estão em contacto com o gabinete do secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, estudam uma opção militar no caso da via diplomática não chegar para travar a vontade do Irão.
Se a isto juntarmos o vídeo que mostra soldados britânicos a espancarem civis iraquianos, o facto de os EUA e Israel estarem a preparar a suspensão de ajuda aos palestinianos, tendo em vista forçar novas eleições para derrotar o Hamas e de que a guerra no Iraque está longe do fim, veremos que são demasiadas coisas juntas a espicaçar a ira do Oriente.

13 de fevereiro de 2006

Agostinho da Silva (1906-2006)



George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906. Nesse mesmo ano mudou-se para Barca d'Alva, regressando ao Porto somente em 1912 para estudar.
Em 1924 entrou para a Faculdade de letras do Porto, curso de Românicas, mas transfere-se, nesse mesmo ano lectivo, para Filologia Clássica. Terminou a sua licenciatura em 1928, tendo passado a colaborar com a revista Seara Nova.
Após frequentar a Escola Normal Superior de Lisboa, partiu para Paris, em 1931, como bolseiro, tendo estudado na Sorbonne e no Collége de France.
Regressou a Portugal em 1933 tendo sido colocado no Liceu de Aveiro como professor.
É demitido do ensino oficial dois anos mais tarde, por não ter assinado a Lei Cabral.
Tendo conseguido uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores de Espanha vai estudar para o Centro de Estudos Históricos de Madrid.
Devido á eminência da Guerra Civil Espanhola, regressa a Portugal em 1936.
É preso pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) em 1943.
Em 1944 abandona Portugal e ruma à América do Sul. Entra pelo Rio de Janeiro e, posteriormente, dirige-se a S. Paulo. No ano seguinte abandona o Brasil e instala-se no Uruguai e chegando depois à Argentina onde vive em 1946.
Regressa em definitivo ao Brasil em 1947. No Rio de Janeiro trabalha no Instituto Oswaldo Cruz, ensina na Faculdade Fluminense de Filosofia, ao mesmo tempo que colabora com Jaime Cortesão, na Biblioteca Nacional, aprofundando a obra de Alexandre Gusmão.
Integra o corpo docente da Faculdade de Paraíba (João Pessoa) em 1952, leccionando também em Pernanbuco.
Ajuda a fundar a Universidade de Santa Catarina e ensina Filosofia do Teatro na Universidade da Bahia. Em 1961 o presidente Jânio Quadros chama-o para seu assessor para a política externa.
No ano seguinte colabora na fundação da Universidade de Brasília e cria o Centro de Estudos Portugueses da mesma Universidade.
Equiparado a bolseiro da organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (UNESCO), visita o Japão em 1963. Em Tóquio dá aulas de Português.
Regressa ao Brasil e assenta arraiais entre Cachoeira e Salvador. Em Cachoeira funda a Casa Paulo Dias Adorno que, para além de Centro de Estudos é igualmente uma escola.
Porque nunca se deu bem com ditaduras, sai do Brasil em 1969 e regressa a Portugal, onde se dedica essencialmente à escrita.
Mais tarde, depois do 25 de Abril de 74, volta ao ensino: universitário por título honorífico e particular na sua casa do Príncipe Real.
Viaja, escreve, recebe medalhas e títulos, participa em programas televisivos.
Morre a 3 de Abril de 1994 em Lisboa.


Latinista e filólogo, educador e ensaísta, filósofo e tradutor, entomologista e matemático, divulgador cultural, fundador de universidades e de centros de estudos, político e lutador pela(s) liberdade(s), independente e inconformista. Detentor de espírito livre e incansável defensor da plena realização e da libertação pessoal, capaz de contagiar com a força das suas ideias, Agostinho da Silva percorreu o século XX e os cinco continentes falando do passado para expressar projectos de futuro: ver reconhecido o valor da Língua Portuguesa como veículo de união entre povos, unidos em fraternidade universal.


Agostinho da Silva é um dos mais paradoxais pensadores portugueses do séc. XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica: "Não sei se há filosofias nacionais, e não sei se os filósofos, exactamente porque reflectem sobre o geral, se não internacionalizam desde logo".

O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal. o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo", entendendo por "povo português" não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor. Embarcando num sonho universalista em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como uma figura do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo, respirando um misto de franciscanismo e de joaquimismo e, em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças: "Restaurar a criança em nós, e em nós a coroamos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do Império", o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo.

Um império sem clássicos imperadores, que leve aos povos do mundo uma filosofia capaz de abranger a liberdade porque se bate a América, a segurança económica da União Soviética e a renúncia aos bens que depois de ter estado na filosofia de Lao-tsé, diz estar também na de Mao-tsé, mas uma filosofia que as três possam corrigir, purgando a primeira de imperialismos, a segunda de burocracias e a terceira de catecismos.

É esta uma filosofia que, como Agostinho gostava de dizer, não parte imediatamente de uma reflexão sobre as ciências exactas, como em Descartes ou Leibniz, mas da fé, como acontecia em Espinosa. Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferído que a palavra "crer" parece ter a mesma origem que a palavra "coração", fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas. Assim seria possível valorizar aquilo que na visão de Agostinho da Silva nos distinguiria como povo e como cultura: um povo e uma cultura capazes de albergar em si "tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico".

Império do futuro precavido e purgado dos males que arruinaram os quatro anteriores, sem manias de mando, ambições de ter e de poder, sem trabalho obrigatório, sem prisões e sem classes sociais, sem crises ideológicas e metafísicas. Esse já não era o império europeu, dessa Europa ávida de saber e de poder, e por isso esgotada como modelo para os outros oitenta por cento da humanidade, menos ávida de poder e mais preocupada com o ser. Trazer por isso o Mundo à Europa, como em tempos idos levámos a Europa ao Mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

Dedicou toda a vida à liberdade do Homem e do Espírito. Fundou universidades, percorreu o país com palestras abertas a todos. Falava 15 línguas e dois dialectos africanos. Não perdia os desenhos do "Calvin" publicados no "Público".

A sua obra reparte-se por diversos domínios:

estudos clássicos: Breve ensaio sobre Pérsio, Sentido histórico das civilizações clássicas, aA religião grega;

tradução e apresentação de textos clássicos e modernos: Sófocles, Platão, Aristófanes, Lucrécio, Plauto, Terêncio, Teócrito, Catulo, Salústio, Suetónio, Tácito, Montaigne;

biografias: Pestalozzi, Francisco de Assis, Franklin, Lamennais, miguel Ângelo, Pasteur, Lincoln, Robert Owen, Washington, Leopardi, Leonardo da Vinci;

pedagogia: Sanderson e a Escola de Oundle, O método Montessori;

divulgação cultural, artística e científica: os Cadernos de Iniciação, textos para a juventude e tantos outros;

ensaísmo: Glossas, Conversa com Diotima, Parábola da mulher de Loth, Considerações, sete cartas a um jovem filósofo, Reflexão à margem da literatura portuguesa, Um Fernando Pessoa, As aproximações;

ficção: Herta-Teresinha-Joan;

Além das obras publicadas em volume, podemos encontrar um enorme volume de artigos espalhados por revistas e jornais: A Águia, Dyonisos, Seara Nova, Revista de Portugal, Pensamento, O Instituto, Boletim de Filologia, 57, Espiral, tempo Presente, O Tempo e o Modo, Cultura Portuguesa, Nova Renascença, vida mundial, Notícia, e muitos mais.

“O importante, disse-o um dia a alguém que me pedia conselho, é ser-se o que se é e tornar-se contagioso. A primeira responsabilidade que nos assiste é saber o que se é: continuo convencido de que todos nós nascemos com uma partitura na cabeça. Depois, tantas vezes, ou porque nos faltou mestre de música, ou porque não encontrámos piano à mão, vamo-nos entretendo a tocar coisas que não são da nossa partitura. Há então que fazer o esforço, individual ou colectivo, de achar o mestre e o piano que a partitura exige. Conseguido isso, devemos tornar-nos contagiosos.” Agostinho da Silva sobre tornar-se contagioso

11 de fevereiro de 2006

World Press Photo

O prémio World Press Photo 2005, anunciou ontem em Amesterdão (Holanda) a organização, foi atribuído a uma foto que retrata a fome no Níger, captada pelo canadiano Finbarr O’Reilly para a agência Reuters.
A imagem, que recebeu o título de ‘Mãe e filho num centro de emergência alimentar em Tahoua, Níger’, foi captada a 1 de Agosto de 2005, nesta cidade a Norte do país africano, onde a pior seca em décadas e uma devastadora praga de gafanhotos deixaram milhões de pessoas sem alimentos.
O World Prees Photo foi criado em 1995 pela União de Fotojornalistas Holandeses (NVF) e tem por fim distinguir imagens de acontecimentos que marcaram o Mundo.
A foto causa-nos arrepios






Quem pretender ver mais trabalho deste fotógrafo canadiano e de outros fotógrafos sobre a fome na Nigéria poderá clicar sobre http://www.lemonde.fr/web/imprimer_element/0,40-0@2-3212,50-676109,0.html, para ver mais imagens de O'Reilly, basta colocar o seu nome completo no directório do Google images.

10 de fevereiro de 2006

Não há adjectivos capazes de caracterizar tal coisa

O padre Serras Pereira voltou ao ataque.
Da primeira vez fica-se incrédulo perante perante tanta insensatez.
Desta vez ficamos estupidificados perante declarações tão abstruzas.
A entrevista vem no "Independente", mas só para terem uma ideia, aqui fica um endereço onde podem ler algumas declarações: http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=645279&div_id=291
Só espero que a frase «matar uma criança é mais grave do que abusar dela», proferida por ele, não se destine a justificar a enorme quantidade de casos de abusos sexuais que têm abalado a Igreja.

Brada aos céus

Ao que parece Jorge Sampaio não foi a Canas de Senhorim para evitar confrontos. Sendo que em parte percebo, mas não aceito, apraz-me dizer que mal vai o país onde o Presidente da República se coíbe de ir a um determinado local para evitar confrontos com a população.
E sobre a questão de concelho e não concelho, gostaria que a comissão que pretende elevar Canas a Concelho, explicasse como é que Canas pode ser Concelho sozinho. Ou será que pretendem que Nelas pertença ao concelho de Canas? Ou será que é criar mais um concelho sem infra-estruturas para depois todos nós pagarmos? Criar um concelho no papel é fácil, dotá-lo das infra-estruturas necessárias e dar-lhe pernas para ele andar é mais difícil.

9 de fevereiro de 2006

As autárquicas

Tempos atrás fiz referência ao facto de terem sido distribuídos erradamente mandatos em sequência das eleições autárquicas de 2005.
Pois bem deixo-vos os links para que possam confirmar essa mesma situação.

RESULTADOS OFICIAIS- AL/2005 - Publicação no DR
Os resultados definitivos da eleição dos Órgãos das Autarquias Locais de 9.Out.2005 constam do mapa oficial da CNE nº 1-A/2006, publicado no Diário da República, nº 26, I Série B, Suplemento, de 06.02.2006, cuja distribuição ocorreu no dia 8 de Fevereiro de 2006.

Os referidos resultados estão, também, disponíveis on line - em RESULTADOS ELEITORAIS (A consulta da base de dados não dispensa a consulta do D.R. original)
Da operação de elaboração do Mapa de resultados e eleitos, com base nas actas de Apuramento Geral, verificou-se existirem as seguintes ocorrências:
- Sequência incorrecta na atribuição dos mandatos por deficiente aplicação do método de Hondt (sem influência nos resultados)
- Sequência incorrecta na atribuição dos mandatos por deficiente aplicação do método de Hondt (com influência nos resultados)
- Diferença entre o número de mandatos legalmente fixado e o atribuído pelas Assembleias de Apuramento Geral
Os DOCUMENTOS relacionados com esta eleição podem ser encontrados no menu "ELEIÇÕES/REFERENDOS" em Eleições autárquicas de 9 de Outubro de 2005.

Quem se interessar por outras eleições pode visitar http://www.cne.pt/.

Gravíssimo

A ser verdade o texto que se segue e que extraí do JN de hoje, estamos perante um caso gravíssimo e que deve ser urgentemente esclarecido.
O texto em causa é: "Artur Albarran terá pago a altas figuras do Estado para que o relatório da Inspecção Geral de Finanças que aponta para indícios de branqueamento de capitais na sua empresa, a Euroamer, não saísse das Finanças. Quem o afirma é Themudo Barata, advogado de Teresa de Sousa, a ex-funcionária da Procuradoria-Geral da República (PGR), condenada por corrupção a quatro anos e meio de prisão, precisamente por ter tentado, juntamente com o arguido Emílio Branco, obter dinheiro junto do ex-apresentador de televisão, sob ameaça de publicação do relatório na Comunicação Social. Esta revelação foi feita ontem, no tribunal da Relação de Lisboa, durante a audiência para apreciação dos recursos interpostos tanto pelo Ministério Público (MP) como pelo próprio Themudo Barata, contra o acórdão do tribunal da Boa Hora." (o resto poderá ler-se em http://jn.sapo.pt/2006/02/09/sociedade/causidico_que_albarran_pagou_a_figur.html

Quem assim fala deve ter provas, portanto publicite-as. É urgente e imperioso que todos nós saibamos quem são essas figuras.
A moralização da vida pública não se faz por decreto ou por comissões de inquérito. Faz-se, fazendo sentar no local próprio todos aqueles que eleitos ou nomeados se servem do seu lugar na vida pública para obterem dividendos em benefício próprio, pois só assim chegaremos a algum lado.

Sempre do contra

A Escola Secundária D. Duarte, em Coimbra, decidiu retirar as máquinas de venda de produtos alimentares.
Esta acção insere-se a campanha ‘Comer Saudável’, apresentada pela DREC e pela Administração Regional de Saúde do Centro.
O presidente do conselho executivo da referida escola, explica a opção com a existência de “um refeitório e um bar bem apetrechados, que satisfazem os alunos”. O mesmo responsável não aceitou o encerramento dos bares à hora de almoço, sugerido pela DREC, para incentivar os alunos a comer nos refeitórios, porque diz “Nestas idades é difícil colocar a ideia em prática e preferimos ter os jovens na escola, a comer no bar, em vez de irem para a rua comer não sabemos o quê.”
Perante isto, acção que julgo meritória a todos os níveis, veio o Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) acusar o Ministério da Educação (ME) de fazer “muito pouco para mudar hábitos alimentares dos jovens e para controlar a qualidade das refeições nas escolas”.
Num comunicado, o SPRC afirma que “está a ser percorrido o caminho mais fácil, que é controlar a qualidade das refeições nas escolas onde essa preocupação já existe”. O SPRC critica ainda a Direcção Regional de Educação do Centro por estar a retirar das escolas máquinas com “sandes de ‘plástico’, certas bebidas e chocolates”, mas ignorar que essas marcas “continuam a ocupar espaço privilegiado nos folhetos de iniciativas que envolvem milhares de jovens, num evidente apelo ao consumo”.
Isto é contestar por contestar, já que o SPRC nem esperou os resultados do programa. partiu logo do pressuposto de que era mau.
Convenhamos que isto não atesta muito em favor do SPRC e de Mário Nogueira, elemento este que se tornou, na minha opinião, mais político do que sindicalista.

8 de fevereiro de 2006

É o descalabro total

O PSD Madeira apresentou um requerimento a solicitar a avaliação das ‘faculdades mentais’ do deputado socialista João Carlos Gouveia.
O requerimento foi apresentado pela bancada do PSD depois da intervenção do deputado socialista, que afirmou que a situação política na Madeira está transformada num “paraíso criminal” devido à “inacção do poder judicial”.
Na sequência das afirmações de João Carlos Gouveia, o grupo parlamentar PSD-M pediu à Mesa da Assembleia Legislativa a “avaliação das faculdades metais “ do deputado. Em reacção ao requerimento, os deputados do PS-M, PCP-M, CDS/PP-M e BE-M abandonaram o plenário recusando-se a participar nos trabalhos, que prosseguiram com os deputados do PSD-M.
E se a situação anterior já provocou admiração, pasmem agora senhores com esta: os deputados do PSD, sozinhos, aprovaram dezanove diplomas em quinze minutos.
Aquilo é que foi trabalhar. Amanhã ficam todos em casa com um esgotamento.
Será que ninguém consegue impor respeito.
A palhaçada tem locais próprios.
E Marques Mendes diz o quê a isto?

Para poderem ler a intervenção de João Carlos Gouveia na íntegra, cliquem em: http://www.portugaldiario.iol.pt/extras/Fevereiro.doc
Que estranho

Ontem ouvi duas coisas proferidas pelo líder social-democrata que me deixaram espantado, confuso, eu sei lá o quê.
A primeira prende-se com o dito pacto de regime para a justiça com que p PSD pressiona o Governo. Marques Mendes disse que "se o Governo continuar a recusar este pacto de forma arrogante, apresentaremos iniciativas concretas na altura própria”.
Ora, tanto quanto sei o líder do PSD já tinha em seu poder uma carta do ministro da Justiça, Alberto Costa, carta dirigida a todos os partidos da oposição parlamentar, propondo conversações no âmbito da reforma do Código do Processo Penal já anunciada pelo Executivo.
É estranho, não é?
A segunda prende-se com as declarações proferidas após a reunião com o sr. Procurador-Geral da República.
Marques Mendes afirmou que "o PGR é um magistrado sério e competente. Acho que é positivo para o País que as investigações judiciais que há a fazer sejam feitas com total independência e liberdade do poder político, como tem acontecido.” Acrescentou ainda o líder do PSD que “nem o Ministério Público existe para fazer política nem o Governo ou os partidos existem para se intrometerem nas investigações”.
Não coloco em causa a seriedade de Souto Moura e também sou de opinião que o ministério Público não existe para fazer política, nem os partidos se devem intrometer nas investigações.
Quanto ao resto, meus amigos paira uma grande núvem.
As investigações devem ser feitas com independência, mas também com seriedade. Quem comete asneiras grosseiras nessas investigações deve ser posteriormente chamado a contas. E mais, a Procuradoria deve possuir a "alma limpa" e, em face de tudo quanto tem acontecido, não podemos dizer que essa "alma" tenha sido lavada com Tide, Skip, ou outro qualquer detergente branqueador, antes pelo contrário, podemos é afirmar que é uma "alma" onde pontuam algumas nódoas.
Esta declaração de Marques Mendes, só acontece porque a ultima crise protagonizada pela Procuradoria (a propósito qual é o resultado do inquérito instaurado?) ocorreu em plena campanha eleitoral para a presidência e o líder do PSD nessa altura tinha de estar de distraído e calado.

Vamos à OPA

Estamos perante uma operação estranha.
Primeiro: Em 2005 foi avançado pela SONAECOM que durante este ano (2006) ia nascer a grande concorrente à PT, ou seja ia nascer uma empresa da SONAE para avançar com televisão (previam-se 100 canais), rede fixa de comunicações e internet, tudo junto.
Afinal a SONAECOM aparece agora a tentar comprar a PT.
Segundo: É no mínimo estranho que a SONAE esteja agora interessada em tornar-se monopolista da rede cabo, cobre e internet, quando tem sido uma crítica acérrima desse mesmo monopólio pela PT.
Terceiro: É o Santander, por si só, que avaliza esta operação, ou é um sindicato bancário? Se é esta última hipótese, quem são os componentes dele?
Quarto: A Telefónica não tem dinheiro para assumir a maioria da PT no seu conjunto, mas terá para uma parte. O desmembramento que acontecerá se a OPA for por diante é para dar hipótese à Telefónica?
Quinto: A PT é uma empresa portuguesa com uma posição importante a nível mundial, devido à sua globalidade. Desmembrar não é retirar-lhe capacidades de concorrência internacional?
Sexto: Talvez que este seja o mais importante. Não deverá a PT ser uma empresa de bandeira?
Tenho consciência de que caminhamos (ou talvez não) para menor Estado, melhor Estado. Mas também estou consciente de que devem existir empresas, pelo serviço que prestam, não devem sair da órbita do Estado. Incluo aqui a TAP, a CP, a EDP, a REN, as Águas de Portugal e outras que pelo serviço que prestam não podem, nem devem estar condicionadas aos apetites vorazes dos privados. A PT é uma destas.
Aguardemos pois pelo desenrolar da história.

5 de fevereiro de 2006

A Câmara Municipal de Lisboa

Antes de iniciar a matéria que me propus gostaria deixar a definição de autarquias locais.

"Definição de Autarquias Locais: Em Portugal, as autarquias locais têm, desde 1976, dignidade constitucional. Segundo a lei fundamental, a organização democrática do Estado compreende a existência de autarquias locais, sendo estas pessoas colectivas de população e território dotadas de órgãos representativos que visam a prossecução dos interesses próprios, comuns e específicos das respectivas populações.". (Esta definição pode ser encontrada em http://www.dgaa.pt/default.asp?s=12168).

Vem tudo isto a propósito da notícia de que "o presidente da Câmara Municipal de Lisboa contratou amiga do jet-set para as festas da Câmara".
Pouco me importa se a senhora é do jet-set, do jet-oito ou mesmo do jet-nove; se a senhora é amiga ou não do presidente.
O que me importa é que uma Câmara Municipal não tem como finalidade a organização de festas. Estas podem acontecer e acontecem mas são excepções dentro da vida camarária e não é a vida camarária que é uma excepção dentro das festas.
Ora sendo assim é descabido contratar um elemento destes, tanto mais que sabemos todos que a dívida da Câmara duplicou com Santana e Carmona, e que essa dívida é paga por todos nós.
Numa situação destas o que importa é economizar e não esbanjar. Para desgraça já bem basta o caso do automóvel que ninguém quer comprar e que custou um dinheirão.
Meus senhores o governo da coisa pública é demasiado sério. Importa governar como se da nossa casa se tratasse, isto é com regras, já que a vida está pela hora da morte.
Não esbanjemos. Deixemos de lado o belo do croquete. Trabalhemos e apliquemos o dinheiro no muito que ainda há a fazer em prol dos munícipes, porque só desta forma poderemos chegar ao final do mandato com a consciência tranquila.

Ainda na CML

O texto que se segue aparece em http://www.cm-lisboa.pt/, ou seja na página oficial do município lisboeta.
"Na tarde do dia 1º de Fevereiro, 98 anos passados sobre a trágica data (1908) do duplo regicídio que vitimou mortalmente o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, a efeméride foi assinalada com o descerramento de uma lápide evocativa junto ao local do acontecimento – o Terreiro do Paço, na esquina para a entrada da Rua do Arsenal."
Penso que a República, que é Portugal, dispensava "trágica data".

A terminar não posso deixar de chamar a atenção para o trabalho que o DN hoje publica na pág. 16-17. Trata-se de uma entrevista com Manuel Castells, (http://zaratustra44.blogspot.com/2005_10_01_zaratustra44_archive.html).
O link que aqui fica não reproduz a totalidade da entrevista, mas mesmo assim merece ser lido
http://dn.sapo.pt/2006/02/05/internacional/e_a_cultura_produz_a_tecnologia.html.

2 de fevereiro de 2006

Sim à seriedade, não à palhaçada

Antes de tudo devo informar que nada me move contra os homossexuais, sejam eles masculinos ou femininos, e aos seus direitos.
Feita esta ressalva, vou falar do que aconteceu ontem na 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa.
Pois bem, a Teresa e a Helena apresentaram-se na dita Conservatória para oficializar o seu pedido de casamento e estão no seu direito.
Não pretendo iniciar aqui uma discussão sobre a legalidade ou não de tal a cto. Aliás pouco me importa se está de acordo com o Código Civil ou a Constituição. O que importa num casamento ou numa união de facto é a vontade dos dois elementos querem estar um com um outro, é o amor que sentem, é o desejode partilharem um caminho juntos. Se são duas mulheres, se são dois homens, se é uma mulher e um homem, isso não deverá ser impeditivo de nada.
Mas o caso em apreço merece a minha reflexão por outro motivo.
O pedido de casamento ocorreu envolta num mediatismo exagerado. A união entre dois seres humanos é um momento sério e pessoal. Se existem convidados isso fica a dever-se ao facto de estes terem uma relação muito próxima com os protagonistas e se existe um fotógrafo, é porque esses mesmos protagonistas desem possuir uma recordação de um momento que lhes é querido. Ontem assistimos a um circo mediático onde pontuavam até televisões estrangeiras(TVE) que não se coaduna com a seriedade do momento.
Mais grave que isto tudo é o facto de, ao que consta, isto ter acontecido porque Luís Grave Rodrigues, advogado de Lisboa, dispôs-se, em 2005, a apadrinhar um casal gay que quisesse casar em Portugal. Ofereceu os seus serviços em blogues homossexuais e confirmou a oferta em entrevista a um jornal.
Ao que parece o advogado foi contactado por pessoas que queriam casar, mas não queriam aparecer; outras pretendiam aparecer mas não queriam casar, até que apareceram a Teresa e a Helena que reuniam as duas condições(queriam casar e aparecer) para além de que não tinham dinheiro pelo que o advogado prescindiu dos honorários.
Temo que isto tudo mais não seja do que uma autopromoção de uns quantos à conta de um assunto sério e que merece toda a nossa atenção.

Mas havia dúvidas!?

A Câmara de Lisboa tinha em Outubro de 2005, quando das eleições autárquicas, um passivo de 926 milhões de euros, o dobro da dívida existente em 2001.
O actual presidente não pode abrir a boca de espanto, pois foi vice de Santana Lopes durante o período de 2001 a 2005.