30 de dezembro de 2005

Falta-me a paciência

"Assim sendo, a função pública vai pagar o desatino, como sempre, mas será ela, no final, que "destruirá" a maioria".
Esta frase faz parte da crónica de hoje de Luís Delgado no DN de hoje.
Só mostro isto para que percebam o artista. Acaba o ano como o começou, com incoerência.
Sempre ouvi da boca deste senhor que os funcionários públicos eram uma classe privilegiada, que deviam ser objecto de uma profunda reestruturação, que era uma máquina muito pesada e sem produzir, etc. e etc.
Agora, porque o que está em causa é o Governo de Sócrates (se fosse de Santana Lopes ou Cavaco a conversa era outra) vai de inflamar.
Já não há pachorra.


E porque interrompo até dia 2 de Janeiro deixo para todos um feliz


29 de dezembro de 2005

Eu até me esforço... mas não compreendo

É verdade. Todas as vezes que são publicados os resultados do sector bancário eu faço um esforço enorme para compreender e aceitar os dados, mas a verdade é chego à conclusão que é um esforço inglório.
Ora vejamos.
A Associação Portuguesa de Bancos divulgou ontem os resultados do sector bancário. Após uma leitura em diagonal chega-se á conclusão que o referido sector registou resultados líquidos de 883 milhões de euros no primeiro semestre deste ano.
Numa análise mais detalhada verificamos que, relativamente ao período homólogo, o sector empregou 41 273 colaboradores neste período, o que representa uma redução de 800 colaboradores, mas, em contrapartida, o número de balcões aumentou para 4061 (mais 96 balcões).
É muito lucro se tomarmos em conta que o crescimento da economia é nulo.
É muito lucro se considerarmos que o país tem quase 500 mil desempregados.
É muito lucro seja de que maneira for.
E como é que é a tributação destes lucros? Isto deve dar uns bons milhares de euros para os cofres das Contribuições e Impostos! ou será que não dá?

Contrastando

Os portugueses têm cada vez mais dívidas.
No ano passado, o endividamento dos particulares representava 118 por cento do seu rendimento disponível e o montante global de crédito à habitação subiu onze por cento, segundo os indicadores sociais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Por outro lado, em 2004, os dados do INE indicam que o produto interno bruto (PIB) era de 13,5 mil euros por habitante, traduzindo um crescimento, em valores reais, de 0,6 por cento face ao ano anterior.
Em 2003, a taxa de pobreza, depois das transferências sociais, era de 19 por cento. Em termos da desigualdade da distribuição do rendimento, verificou-se que os 20 por cento da população com rendimentos mais elevados tem um rendimento 7,4 vezes superior ao dos 20 por cento da população com rendimentos mais baixos.
O Índice de Preços no Consumidor aumentou 2,4 por cento no ano passado, com os maiores aumentos anuais a registarem-se no sector da educação (9,3 por cento) e restaurantes e hóteis (4,6 por cento). Em sentido inverso, em 2004, os preços no vestuário e calçado bem como as comunicações apresentaram decréscimos de 1,2 por cento e 1,1 por cento, respectivamente.
Considerando a taxa de variação de preços entre os anos 2000 e 2004 verificamos uma subida no conjunto das classes de 14,3 por cento, com a educação a registar o maior aumento, de 28,6 por cento.
Durante os quatro anos, as comunicações foram a única classe a registar uma descida dos preços, de 3,9 por cento.

Resumindo

Os portugueses estão hoje mais velhos, mais pobres e mais endividados. Há 108,7 idosos por cada 100 jovens até aos 14 anos. O Alentejo é a região mais envelhecida do País e os Açores a mais nova. No total, são quase 1,8 milhões de pessoas com 65 ou mais anos de idade. O endividamento particular representa 118 por cento do rendimento. A sociedade é cada vez mais desigual. Os 20% mais ricos têm um rendimento 7,4 vezes superior aos 20 % da população mais pobre.
Percebem o porquê de eu não entender os fabulosos lucros da banca?

28 de dezembro de 2005

Espectacular


Pode considerar-se espectacular a resposta que a Companhia Teatral "Escola da Noite" dirigiu ao vereador da cultura de Coimbra.
A "Escola da Noite", única companhia de teatro profissional da cidade, "pede desculpa" ao vereador da Cultura pelos "graves prejuízos" que tem causado ao município, designadamente pelos "14 anos de actividade regular e ininterrupta" - ao longo dos quais realizou "1200 espectáculos", a que assistiram "113 mil espectadores", e que motivaram 90 digressões nacionais e cinco internacionais.
Mário Nunes bem escusava de "ter de se assoar a lenços destes".

Quem quiser saber mais sobre o assunto pode ler:

http://www.diariocoimbra.pt/11582.htm

http://www.aescoladanoite.pt/paginas/018-opiniao.html

http://www.aescoladanoite.pt/paginas/019-opiniao.html

27 de dezembro de 2005

Que refinado que ele é

Ainda não chegou ao posto e já vai, através de sugestão, impondo a criação de um Secretário de Estado ou de um Director Geral para acompanhar as empresas estrangeiras sedeadas em território nacional, cargo que nunca vi criado enquanto foi primeiro-ministro, quer reunir longamente e a sós com o primeiro-ministro.
Eu tinha avisado que ele é um presidencialista e que quer comandar os destinos de Portugal. É Cavaco no melhor estilo dos tempos do cavaquismo, esse tempo que mereceu o repúdio de todos os portugueses.
Por outro lado confirma-se o porquê do seu staf desejar que ele permaneça de boca fechada, é que cada cavadela, cada minhoca.



Village Politics(Engraving by Jazet, 1820)

26 de dezembro de 2005

www.tssphoto.com/ ops_images


"As duas meninas que morreram na madrugada de sábado, em Gaia, num incêndio quando se encontravam sozinhas em casa estavam identificadas, há sete meses, pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo do concelho. O projecto apresentado pela Associação de Proprietários da Urbanização Vila d'Este (APUVD), reprovado pela Segurança Social por "insuficiência orçamental", apontava para a existência naquela urbanização de 106 "pontos críticos", incluindo os casos da Bianca Silva, de três anos, e de Daniela Vanessa Silva, de seis anos." (DN de hoje)

"Tal como a Segurança Social, também os principais políticos de Vila Nova de Gaia tinham conhecimento do teor do projecto da APUVD. Ao longo deste mês, a associação promoveu reuniões de trabalho, para apresentar o levantamento das necessidades para Vila d'Este, entre outros, com a vereadora da CDU e eurodeputada Ilda Figueiredo, com o vice-presidente da autarquia, Marco António Costa, e ainda com o vereador da Acção Social, José Guilherme Aguiar. Na ocasião, os responsáveis da APUVD apresentaram, igualmente, um novo projecto destinado a crianças e jovens, e também a pessoas vítimas de violência doméstica. Quanto ao primeiro ponto, pretende-se a melhoria das condições de vida das crianças e jovens em risco ao nível dos domínios do saber ser, saber estar e saber fazer, prevenindo situações de exclusão social. No que toca às situações de violência doméstica, o objectivo é promover a aquisição de conhecimentos das pessoas envolvidas." (DN hoje).

"Foram os próprios pais, que tinham deixado as meninas sozinhas em casa enquanto “deram um salto” ao café da associação de moradores, os primeiros a acudir às meninas, inanimadas pelo monóxido de carbono do incêndio que tinha assaltado a mal cuidada casa da família.Foi David quem as tirou do apartamento e desceu alucinadamente os sete lances de escada até ao rés-do-chão em busca do ar que devolvesse a vida às filhas. Mas era já tarde de mais. Morreram ambas por inalação de fumos. Nem uma queimadura sofreram. Na urbanização, o dia de ontem foi vivido com pesar e angústia. Pesar pela morte das duas menina; angústia porque as circunstâncias da tragédia causaram um misto de revolta e culpa colectiva.“A mãe nunca tratou mal as meninas e todos nós, vizinhos, ficamos espantados com o modo como ela vivia em casa [onde os pertences estavam acumulados como se se tratasse de uma lixeira]”, diz Raquel Abreu, apertando um pouco mais a sua filha Tatiana. “Parece que os ouviam discutir na rua e em casa, mas com as meninas não há testemunhos de violência.”" (Correio da Manhã, hoje).

"Os números colocam Vila Nova de Gaia, com excepção dos principais centros urbanos, no topo dos municípios com mais crianças e jovens em perigo, seguida da Moita com 484 e Almada com 481. Segundo o mesmo relatório, verificou-se na maioria dos distritos do País uma discrepância entre a disponibilidade dos técnicos e o número mínimo de horas de trabalho necessárias para a intervenção, segundo os próprios critérios das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens. De acordo com o número de crianças abrangidas pela comissão de Gaia, 603, os técnicos deveriam dispensar 70 por cento da semana – sete manhãs ou sete tardes – para o acompanhamento.
Por outro lado, e segundo os mesmos dados, o número de casos de crianças entregues a si próprias triplicou entre 2002 e 2004, passando de 21 para 61.
O CASO DE CATARINA
Apesar de o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, ter garantido ontem que as duas crianças mortas num incêndio em casa, na passada sexta-feira em Gaia, não tinham sido consideradas casos de risco pelos serviços sociais locais, o caso trouxe à memória a trágica morte da pequena Catarina, vítima de maus tratos. Recorde-se que foi a Comissão de Protecção de Menores e Jovens em Risco de Vila Nova de Gaia que, em Agosto de 2003, ordenou que a criança, de 30 meses, – então à guarda da Associação de Solidariedade e Acção Social de Santo Tirso – fosse entregue ao pai. Dois meses depois, em Outubro, Catarina foi encontrada morta em casa, em Ermesinde.
O pai e a tia foram condenados a 14 anos de prisão, em Novembro de 2004. O juiz Cardoso Amaral considerou que “os arguidos se comportaram de forma selvagem, desumana e horrenda”". (Correio da Manhã, hoje)

É preocupante o número de casos que estão a acontecer com as Comissões de Protecção de Jovens em Risco. E é preocupante porque o final dos casos tem implicações graves nas crianças.
Algo está a falhar. É urgente detectar os pontos de falha para terminarmos com isto de uma vez por todas.
Mas para além disto gostaria de afirmar que a violência não se traduz somente na parte física. O abandono é uma violência que não pode nem deve ficar impune.
Para terminar deixo as palavras de José Guilherme Aguiar:
"O vereador da Acção Social da Câmara de Gaia, José Guilherme Aguiar, reconhece que o País deve assumir um “alerta geral amarelo”, decorrente dos problemas sociais “causados pela crise económica”, e que no caso de Vila d’Este a situação é de “alerta vermelho”. “Não quero alijar responsabilidades nem assobiar para o ar, a culpa desta tragédia é de todos nós, Governo, autarquias, cidadãos. A autarquia já definiu o bairro onde morreram as irmãs como de intervenção prioritária. “Que este sacrifício não tenha sido em vão”, lamenta ao CM o vereador." (Correio da Manhã, hoje)

24 de dezembro de 2005


Parece impossível

Passam hoje 100 anos do nascimento de uma figura ímpar das letras portuguesas de seu nome Paulo Manuel Pires Quintela, mais conhecido por Paulo Quintela.
Nasceu em Bragança, em 24.12.1905 e faleceu em Coimbra, em 9.3.1987.
Estudou na Universidade de Berlim (entre 1927 e 1929) e em 1929 licenciou-se na faculdade de Letras de Coimbra, onde ficou como professor, a partir de 1933. Foi prof. extraordinário de Filologia Germânica, desde 1942 e doutorou-se em 1947. Contudo somente ascendeu a prof. catedrático após a revolução de 25.4.1974. De 1938 a 1968 foi director artístico do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Na Crise Académica, em 1969, foi dos primeiros professores da Universidade de Coimbra a juntar-se à luta das jovens almas censuradas. "Milhares de estudantes", reunidos em Assembleia Magna, receberam o tradutor de Brecht com "um trovoada indescritível de aplausos". Em 1960 o Goethe Institut concedeu-lhe a medalha de prata e, em 1973, a medalha de ouro.
Do seu vasto legado ficam as traduções de obras de Rainer Maria Rilke, Bertolt Brecht, Nelly Sachs, etc.. Foi graças a Paulo Quintela que muitos portugueses tiveram o privilégio de ler alguns dos maiores poetas de língua alemã, curiosamente traduzidos por um homem "cujos interesses giraram sempre em torno do realismo social". A Paulo Quintela deve-se ainda a recriação artística do teatro vicentino em termos de modernidade, durante a sua passagem pelo TEUC, e a estreia em Portugal de Antígona e Medeia.
Foi este filho de Bragança e habitante de sempre de Coimbra que a Universidade e a própria cidade esqueceram.

Miguel Torga, António de Sousa, Afonso Duarte, Paulo Quintela e Vitorino Nemésio, numa foto datada de 1937, de www.vidaslusofonas.pt/ torga6.gif (aliás não deixa de ser curiosa a publicação desta foto num site sobre Torga porquanto é por todos sabido que Miguel Torga e Paulo Quintela, dois transmontanos, se incompatibilizaram devido a uma alteração feita por Quintela na capa do livro de poemas "Rampa" de Miguel Torga


E por falar em Coimbra e em cultura

O vereador da Cultura da Câmara de Coimbra deu mais um "pontapé na atmosfera".
Segundo o referido senhor, de seu nome Mário Nunes, referiu, durante a discussão do orçamento da Câmara para 2006 que são os protocolos que a Câmara tem firmados com A Escola da Noite, o Teatro Académico de Gil Vicente e a Universidade de Coimbra - este sobre uma cantina universitária em funcionamento na Casa Municipal da Cultura, são gravosos para a instituição.
Não haverá ninguém na cidade que dê um "puxão de orelhas" a este senhor e o traga à realidade!
Penso até que uma grande parte das pessoas não entende o porquê deste senhor ocupara este cargo. Que credenciais apresenta? Que eu saiba somente ter sido presidente do GAAC.
Para terminar resta lembrar que foi este mesmo senhor que recusou, através da Comissão de Toponímia, dar a uma rua da cidade o nome do diplomata Aristides de Sousa Mendes com a justificação de que este não tinha nenhuma ligação à cidade.
Realmente à cidade não tem, mas tem ao Mundo, na luta contra o genocídio dos nazis. Mas claro, perceber isto era exigir em demasia a um simples vereador como ele.

Ainda dentro da cultura

Sócrates fez valer os seus argumentos e possibilitou que a colecção de Arte Contemporânea de Joe Berardo ficasse em Portugal e situada no Centro Cultural de Belém.
Não sei qual o preço desta aquisição nem os seus custos futuros, mas sejam eles quais forem louvo o primeiro-ministro pela coragem e determinação.
Só não entendo o porquê de Fraústo da Silva ser contra essa aquisição.

23 de dezembro de 2005

A propósito do que escrevi ontem

Quando ontem escrevi o que escrevi estava longe de saber o que se tinha passado no Ministério da Defesa quando Portas foi ministro.
Pois bem Paulo Portas confirmou, pelo seu ex-assessor no Ministério da Defesa, que contratou uma empresa para copiar para CD-ROM todos “os documentos pessoais, cartas, memorandos, despachos, programas, etc.”, com dois objectivos: “Para se defender em caso de ataques políticos e escrever as suas memórias.
Parece e de acordo com Pedro Guerra, Portas pediu ainda para ser copiada toda a documentação referente aos sete anos em que foi líder do partido. O mesmo ex-assessor negou que o ministro tenha mandado microfilmar documentos confidenciais e/ou classificados como segredo de Estado, pois isso seria crime. Confirmou ainda que Portas aconselhou os ex-ministros Luís Nobre Guedes (Ambiente) e Telmo Correia (Turismo) a fazerem também cópias da documentação antes de saírem dos respectivos ministérios.
Primeiro e confirmando o que ontem disse, a direita tem a mania da perseguição. Como se qualquer um deles merecesse críticas que não sejam do âmbito político e para isso não precisão desses documentos para se defender.
Segundo os documentos são pertença dos Ministérios e se fosse preciso contraporem algo solicitavam-nos.
Terceiro como é que a Comissão de Protecção de Dados vê o facto de alguém possuir os registos de um partido? Não nos podemos esquecer que nesses registos podem estar dados pessoais de militantes que os forneceram ao partido e não a uma pessoa individual.
Quarto. O que significa o etc. de “os documentos pessoais, cartas, memorandos, despachos, programas, etc". É que nestas três letras cabe muita coisa.
Quinto e último. Quem é que define o que é classificado e não classificado? E mais: como é que foi feita a passagem para CD-Rom?
O Governo e a Assembleia da República devem investigar este assunto até à exaustão e rapidamente.
E o Ministério Público acha isto normal?
Digam lá se é ou não uma "direita" arrogante, convencida que tudo pode e tudo quer?

22 de dezembro de 2005

E que tal estudar história

Julgo que só o facto de não saber nada de história, levou Ribeiro e Castro, líder do CDS/PP, a dizer o que disse.
O referido senhor considerou "preocupante" que haja jovens que têm como ícone Che Guevara, "um dos grandes assassinos do final do século XX". O líder do CDS defendeu que "é importante que a esquerda se saiba libertar dessas suas referências tremendas de violência, crueldade e intolerância".
Este discurso veio na senda de um outro onde defendeu que a origem do terrorismo está na esquerda: "A esquerda tem responsabilidades em grandes males do mundo. Isso é indiscutível". "Olha-se para o cortejo de miséria na África contemporânea e sabe-se que isso é devido a regimes de esquerda que têm governado o continente", apontando igualmente os regimes de Cuba e da Coreia do Norte. " O terrorismo contemporâneo tem origem numa deriva totalitária do pensamento marxista-leninista" e isso "tem que estar presente no consenso do combate ao terrorismo".

Sem querer parecer "catedrático" julgo que talvez fosse interessante falar aqui um pouco da direita.
Há mais de duzentos anos os congressistas franceses deram ao mundo o conceito, a partir da localização das pessoas num determinado espaço físico, que ainda hoje define a orientação política tomada pelas correntes de pensamento na sociedade. Na Assembleia dos Estados Gerais de 1789, girondinos e jacobinos debatiam os limites da pré-revolução burguesa que pôs fim ao regime dos nobres, da aristocracia e dos clérigos monarquistas.
Numa escolha absolutamente aleatória, os congressistas defensores de pequenas alterações no modelo político-económico francês, mas sem a perda da essência do poder, estavam sentados à direita, enquanto os radicais na luta pelo fim dos privilégios e representantes da pequena burguesia e do proletariado urbano, se posicionaram à esquerda. A partir daí nunca mais esquerda e direita se limitaram a exercer o papel de meros sinalizadores.
Ambas as correntes ideológicas, no passado não muito distante, assumiam-se com tais perfis sem nenhum temor. O problema é que depois de revoluções, contra-revoluções, o holocausto e o genocídio causados pela direita nazi-fascista de Hitler e de Mussolini, assim como as acções criminosas em massa da pretensa esquerda dos estalinistas, a nova direita ridiculariza o conceito, enquanto que a esquerda já não é assim tão esquerda. Se uma nega o seu passado, a outra é incapaz de desempenhar a tarefa com que se comprometeu. É a célebre dicotomia da negação versus capitulação.
A velha direita, embora com trajes aparentemente mais modernos, por meio de articulistas e de outras nefastas figuras do mundo político, diariamente dá à luz teses conspiratórias mirabolante de que estamos a viver com uma Constituição obsoleta, que todos os males são provenientes do sentimento de esquerda que imbuiu a Revolução de Abril, de que devemos regressar à trilogia de "Deus, Pátria, Família", etc., etc..
Podemos mesmo dizer que são pessoas que ainda condenam Jean Jacques Rosseau pela influência das suas ideias sobre a revolução francesa. São os saudosistas das relações sociais mais atrasadas da Humanidade.
Aplaudem a política beligerante de Bush e de Sharon sem verem que esta pode lançar o mundo num caminho de ida sem retorno.
Sofrem da psicose da perseguição comunista. Penso até que têm pesadelos com as imagens e ideias de Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Mészáros, José Saramago.
Pensam, actuam e falam como se o mundo inteligente fosse obra divina de falsos sábios propagadores da doença degenarativa do ódio ideológico à democracia social e não gostam de lembrar que a tal inteligência de exercício do poder que eles construiram arrasou a humanidade e calou nações por esse mundo dentro.
Eles conseguem visionar "os facínoras esquerdistas" no céu ou no inferno após o dia final. E porque sofrem do mal incurável do medo da igualdade, em qualquer plano vão tecendo loas ao vento a propósito de Che Guevara e da esquerda como precursora dos males do mundo.
Perdoem-lhes quem os ouve, já que eles, ao dizê-las, ficam aliviados.

21 de dezembro de 2005

O debate

Estava indicado como o debate mais importante da pré-campanha para as presidenciais e quem o acompanhou não viu as suas expectativas sairem defraudadas.
Soares e Cavaco apresentaram-se com estratégicas opostas. Enquanto Mário Soares teve uma postura de ataque desde o primeiro minuto, Cavaco, hiperdefensivo, esteve sempre mais preocupado em evitar os reptos que Soares lhe enviava.
Mas esta hiperdefesa traduziu-se num discurso vazio, contrastando com Soares que esteve vivo e fluente.
Cada um por si tinha metas diferentes a cumprir.
Soares pretendia dizer que é o melhor repesentante da esquerda para derrotar o adversário, já Cavaco pretendia dar mostras de como é moderado e continuando silencioso no que respeita à sua verdadeira actuação em Belém quis somente consolidar os votos de um centro flutuante.
Mas todos percebemos qual será a forma de actuação de cada um.
Não tenhamos a menor dúvida que Cavaco vai protagonizar um governo paralelo.
As suas "ajudas" serão conflitualidades com o Governo.
Para além de tudo isto existe algo que não devemos descurar: o tom professoral.
Cavaco apresentou-se como o professor, aquele que sabe tudo, aquele que fala do alto da sua cátedra para uma cambada de burros, e tanto é assim que por duas ou três vezes utilizou as expressões "por exemplo" ou "eu explico". Fica-lhe mal essa arrogância, sendo que não são qualidades fundamentais para se ser um bom presidente da república, antes pelo contrário.

Mas nem só de política

Mas nem só de política vive este espaço.
Assinalam-se hoje duzentos anos da morte de Bocage.

Manuel Maria de Barbosa l´Hedois Du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805), poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX.
Nascido em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, falecido em Lisboa a 21 de Dezembro de 1805. Era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, que foi juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l’Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês.
Sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage, tradutora do Paraíso de Milton, imitadora da Morte de Abel, de Gessner, e autora da tragédia As Amazonas e do poema épico em dez cantos A Columbiada, que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da academia de Rouen.
Apesar das inúmeras biografias publicadas após a sua morte, uma boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é muito duvidosa e discutível.
A sua infância foi infeliz. O seu pai foi preso por dívidas ao Estado quando ele tinha 6 anos de idade e permaneceu na cadeia seis anos. A sua mãe faleceu quando ele tinha dez anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 15 de Setembro de 1783. Nessa data, foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I. Nessa altura, já a sua fama de poeta e versejador corria por Lisboa.
Em 14 de Abril de 1786, embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, que fez escala no Rio de Janeiro (finais de Junho) e na Ilha de Moçambique (início de Setembro) e chegou à Índia em 28 de Outubro de 1796. Em Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou, embarcando para Macau. Estranhamente, não foi punido e deverá ter regressado a Lisboa em meados de 1790.
A década seguinte é a da sua maior produção literária e também o período de maior boémia e vida de aventuras. Ainda em 1790 foi convidado e aderiu à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Mas passado pouco tempo, escrevia já ferozes sátiras contra os confrades. Em 1791, foi publicada a 1.ª edição das Rimas. Dominava então Lisboa o Intendente da Polícia Pina Manique que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 7 de Agosto de 1797, dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”. Ficou preso no Limoeiro até 14 de Novembro de 1797, tendo depois dado entrada no calabouço da Inquisição, no Rossio. Aí ficou até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos Padres Oratorianos de São Filipe Néry, depois de uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor. Só saiu em liberdade no último dia de 1798.
De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique, que lhe deu muitos trabalhos para traduzir. A partir de 1801 até à morte viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto.

Bibliografia:
Elegia que o mais ingenuo e verdadeiro sentimento consagra á deploravel morte do ill.mo e ex.mo sr. D. José Thomaz de Menezes, etc., seu autor M. M. B. B., Lisboa, 1790; Queixumes do pastor Elmano contra a falsidade da pastora Urselina; ecloga, Lisboa, 1791; Idyllios maritimos recitados na Academia das Bellas Letras de Lisboa, pelo socio M. M. de B. du B., Lisboa, 1791; 2.ª edição em 1821; e 3.ª em 1825; Rimas de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, tomo I, 1791; Segunda edição correcta e augmentada, Lisboa, 1800; 3.ª edição, 1806, 4.ª edição, em 1834; Eufemia ou o triumpho da religião: drama de Mr. de Arnaud, traduzido em versos portuguezes, Lisboa, 1793; Nova edição, Rio de Janeiro, 1811; novamente impressa em Lisboa, em 1819, em 1825 e 1832; anda também no tomo IV das obras poeticas; Elogio poetico á admiravel intrepidez, com que em domingo 24 de Agosto de 1794 subiu o capitão Lunardi no balão aerostatico, Lisboa, 1794; As chinellas de Abu‑Casem, conto arabico, Lisboa, 1797; Historia de Gil Braz de Santilhana, traduzida em portuguez, tomo I, Lisboa, 1798; 2.ª edição, idem, 1800, com os tomos II, III e IV. 0 tomo I e a continuação até pág. 116 do tomo II, foram vertidas por Bocage; o resto até ao fim da obra, é tradução de Luís Caetano de Campos; Rimas de M. M. de B. du Bocage, dedicadas à amizade; tomo II, Lisboa, 1799; 2.ª edição, 1802; 3.ª, em 1813, 4.ª edição, não se sabe a data, e a 5.ª em 1843; Os Jardins, ou a arte de aformosear as paizagens: poema de Mr. Delille, traduzido, etc., Lisboa, 1800; reimpresso no Rio de Janeiro, em 1812; Canto heroico sobre as façanhas dos portuguezes na expedição de Tripoli: por José Francisco Cardoso, traduzido, etc., Lisboa, 1800; reimpresso no Rio de Janeiro em 1811; Elegia a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, traduzida do latim de José Francisco Cardoso, Lisboa, 1800; Elogio aos faustissimos annos do serenissimo Principe Regente nosso senhor, Lisboa, 1801; As Plantas: poema de Ricardo Castel, traduzido, etc., Lisboa, 1801, com estampas e o original francês em frente; reimpresso no Rio de Janeiro em 1811, e depois em Lisboa, em 1813; O consorcio das Flôres: epistola de Lacroix a seu irmão, traduzida, etc., Lisboa, 1801, com estampas e o texto latino; reimpresso no Rio de Janeiro, 1811, e depois em Lisboa, 1813; Aos annos faustissimos do serenissimo Principe Regente de Portugal (Elogio): composto por M. M. de B. du Bocage, e dedicado por Simão Thaddeo Ferreira, Lisboa, 1802; Elegia á morte de Anselmo José da Cruz Sobral; saiu com outras poesias de diversos autores num folheto, com o título: Eccos saudosos ouvidos na capital portugueza, na passagem a melhor vida do ill.mo conselheiro, etc., recolhidos, e oferecidos a seu illustre filho, Lisboa, 1802; Galathéa: novella pastoril, imitada de Cervantes por Florian, e traduzida em portuguez, etc., Lisboa, 1802; reimpressa em 1816, e depois no Rio de Janeiro, em 1836; Rogerio e Victor de Sabran, ou o tragico efeito do ciume; traduzido, etc., Lisboa. 1802, reimpressa em 1806, e depois em 1819; Epicedio na sentida morte do ill.mo e ex.mo sr. D. Pedro José de Noronha, marquez de Angeja, etc., offerecido ao ill.mo e ex.mo sr. conde de Villaverde, Lisboa, 1804; Poesias de M. M de B. du Bocage, dedicadas á ill.ma e ex.ma sr.a Condessa de Oyenhausen, tomo III, Lisboa, 1804; 2.ª edição, 1806, 3.ª, não se sabe a data; e 4.ª em 1842; Magoas amorosas de Elmano: idyllio, Lisboa, 1805; reimpresso em 1821, e em 1824; A gratidão: elogio dramatico, para recitar Claudina Rosa Botelho no dia do seu beneficio, Lisboa, 1805; A saudade materna: idyllio, Lisboa, 1805; Improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade, dedicados aos seus bons amigos, Lisboa, 1805; reimpresso no Rio de Janeiro, em 1810; Collecção dos novos improvisos de Bocage na sua molestia, com as obras que lhe fôram dirigidas por varios poetas nacionaes: dedicada ao seu benefico amigo o sr. Marcos Aurelio Rodrigues, Lisboa, 1805; A virtude laureada: drama recitado no theatro do Salitre, composto e dirigido ao rev.mo P. M. Fr. José Marianno da Conceição Velloso, etc., Lisboa, 1805; Ericia, ou a Vestal; tragedia traduzida, etc., Lisboa, 1805, reimpressa no Rio de Janeiro, 1811, novamente em Lisboa, 1815 e em 1825; Armia: idyllio, Lisboa, 1806, seguido da ode O Desengano; reimpresso em 1824; Obras poeticas de M. M. de B. du Bocage, precedidas de um discurso sobre a vida e escriptos d'este poeta, por José Maria da Costa e Silva, tomo IV, Lisboa, 1812; 2.ª edição, com a indicação de muito mais correcta, 1820; Verdadeiras inéditas, obras poeticas de M. M. de B. du Bocage, tomo IV, e 1.º de suas obras posthumas, Lisboa, 1813; reimpresso, em 1835; 4.ª edição em 1843; Obras poeticas de M. M. de B. du Bocage, etc, tomo V, Lisboa, 1813; há 2.ª edição, em 1822; Verdadeiras ineditas, obras poeticas, etc., tomo VI e 2.º das obras posthumas, Lisboa, 1814; este volume foi disposto e coordenado para a impressão por Pato Moniz; além das poesias, contêm a tradução da comédia 0 Ralhador, de Brueys e Palafrat, em prosa; 2.ª edição, 1831; Raymundo e Marianna: novella hespanhola, traduzida do francez, etc., Lisboa, 1819; 0 casamento por vingança, novella traduzida, etc., Lisboa, 1820; reimpressa, em 1828; Á morte de Ignez de Castro, cantata, Lisboa, 1824; é transcrita do que anda no tomo II das Rimas do autor; Medéa ou a vingança, cantata, Lisboa, 1826, também transcrita como a anterior; Descripção do Diluvio, Lisboa, 1826; igualmente extraída do tomo II das Rimas; Poesias escolhidas de M. M. de B. du Bocage, Lisboa, 1835; Pena de talião, satyra a José Agostinho de Macedo, Lisboa, 1838; edição bastante incorrecta, por ser feita sobre a que primeiro aparecera da mesma sátira, inserta no Investigador Portuguez, vol. IV, em 1812; Poesias satyricas inéditas de M. M. de B. du Bocage, colligidas pelo professor de grego Antonio Maria do Couto, etc., 2.ª edição correcta e augmentada, Lisboa, 1840; Quadras, mottes, improvisos, decimas e colchêas glosadas, etc., por M. M. de B. du Bocage, Lisboa, 1842; Obras poeticas de M. M. de B. du Bocage. etc,. tomo VI e 3.º das Obras posthumas, Lisboa, 1842; A estancia do fado, elogio dramatico, para recitar-se no real theatro de S. Carlos no dia natalicio da ex.ma sr.ª D. Maria Thereza, em beneficio de Victorino José Leite, Antonio Manuel Cardoso e João Anacleto de Sousa, Lisboa, 1787; Em 1853, Inocêncio Francisco da Silva fez uma nova edição de todas as obras; reunindo-as que estavam impressas, em edições repetidas, numa variedade de folhetos e livros irregulares e mal correctos, e algumas poesias ainda não coligidas; esta edição saiu com o seguinte título: Poesias de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, colligidas em nova e completa edição dispostas e annotadas por I. F. da Silva, e precedidas de um estudo biographico e litterario sobre o poeta, por L. A. Rebello da Silva, Lisboa, 1853, com um retrato do poeta, copiado da gravura original de Bartholozzi, 6 tomos; Poesias eroticas, burlescas e satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno passado de 1853, Bruxelas, 1854; localidade suposta, como é fácil de crer; nas mesmas circunstâncias se fez outra edição em 1860; deste volume também houve uma contrafacção na Baía em 1861, igualmente clandestina. Poesias selectas de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, coligidas e anotadas por J. S. da Silva Ferraz, e precedidas de um esboço biográfico por J. V. Pinto de Carvalho, Porto, 1864, com o retrato: Obras poeticas de Bocage, nova edição, Porto, 1875‑1876, 8 tomos; o último contém a vida do poeta e a apreciação da sua epoca literária, por Teófilo Braga. Com a colaboração de Inácio Ribeiro Soares, compôs: Lizia libertada ou a Gallia subjugada, elogio dramático à restauração da corte e reino de Portugal, solenizada a 15 de Setembro; composto por Manuel Maria de Barbosa du Bocage e Pedro Inácio Ribeiro Soares. Ampliado por Alexandre José Victor da Costa Sequeira. Copiado aos 31 de Março de 1818. No tomo 16 do Diccionario bibliographico, a pág. 412, dá-se nota deste manuscrito, dizendo que a letra parece ser do ampliador Alexandre Sequeira, e pertence às colecções do Sr. Manuel de Carvalhais.


Olha, Marília, as flautas dos pastores

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a noite me causara.


Bocage foi, sem margem para dúvidas, um dos mais brilhantes sonetistas da Língua Portuguesa.

20 de dezembro de 2005

Bastou a primeira parte

Bastou a primeira parte do debate para perceber que Cavaco Silva vai para Belém para servir de contrapoder. As tais forças de bloqueio que Cavaco tanto criticou vão aparecer a Sócrates se Cavaco Silva chegar a Belém.
Bastou ouvir dizer que, e porque especialista em economia e porque tem facilidade de relacionamento com empresários, vai reunir com eles para delinear estratégias.
Estratégias de quê e para quê?
Será que o regime passou a presidencialista sem que nós tenhamos dado conta?
Demagogia, demagogia, demagogia.
Percebe-se que não vai ser um Presidente corta-fitas e isto porque não há fitas, mas tesouras há e fortes.
Logo é que vai ser

As televisões vão ter um serão em cheio.
Enquanto uma(TVI) apresenta o final da sua novela(esticada até à exaustão) , a SIC entrevista, vá-se lá saber porquê, o Roberto Carlos (ai Penim, Penim).
Quanto à RTP, já se sabe é o famoso debate que deverá ser uma seca de todo o tamanho e isto porque um quer interpelar, mas o outro nem quer abrir a boca para ver se as escorregadelas são as menores possíveis.

19 de dezembro de 2005

Uma boa ideia

O DN publicou hoje um texto que reproduzo a seguir e na íntegra sobre a questão das terras abandonadas.

Jovens agricultores querem tributar terras abandonadas
CNJ defende que as terras abandonadas deviam pagar anualmente entre 50 a 100 euros por hectare
As terras abandonadas deveriam ser tributadas, defende a Confederação Nacional dos Jovens Agricultores de Portugal (CNJ), que propõe um pagamento anual entre 50 e 100 euros por hectare não utilizado.Luís Miranda, presidente do CNJ, referiu ao DN que, atendendo à dimensão das terras abandonadas em Portugal, esta tributação poderia representar uma arrecadação fiscal entre os 500 e 1500 milhões de euros por ano, apesar do grande objectivo ser, acima de tudo, a defesa do acesso dos jovens à terra agrícola e com o aumento da produção.

A confederação defende que as autarquias deveriam ter um papel mais activo na gestão do património fundiário. E frisa que o acesso à terra é uma das maiores dificuldades com que os jovens agricultores se deparam quando pretendem iniciar a sua actividade. "A criação de bancos de terras locais que incluam as terras abandonadas poderá ser uma solução para o combate à crescente desertificação do mundo rural e uma medida eficaz na própria prevenção dos incêndios."
Falta cadastro. Portugal detém aproximadamente metade do seu território como área agrícola, totalizando 5,188 milhões de hectares. Mas os dados cadastrais são pouco fiáveis, o que faz com que muitas vezes não se consiga saber a quem efectivamente pertencem as terras, situação que se agravou com a crescente desertificação do Interior desde a década de 50.
Luís Miranda defende que é necessário reforçar os incentivos ao associativismo para se ultrapassar os problemas criados pela pequena dimensão das parcelas e elevado número de proprietários, que não facilitam o emparcelamento e o associativismo. Segundo o último censo, que data de 1999, Portugal perdeu mais de 140 mil hectares e ficou com menos 30,5 % das explorações agrícolas. "Dá uma ideia da dimensão que representa o problema do abandono de terra arável em Portugal nos últimos anos", refere Luís Miranda. Para além disso, cerca de 80% das explorações têm menos de 5 hectares e, em média, cada exploração é composta por 5,8 blocos , o que é uma situação "muito preocupante".
Mas a questão não se prende unicamente com o número de explorações, a sua dimensão e o tipo de exploração, em que 36 % se dedicam à pastorícia e a prados permanentes.
A questão do abandono de terras agrícolas relaciona-se também "com a redução acentuada do número de animais e o desligamento das ajudas à produção, que associada ao envelhecimento das populações vai provocar diminuição do rendimento nacional", conclui Luís Miranda.
Neva Cabral

Ora aí está algo que eu julgo ser fundamental. E isto porque a avançar esta medida permitiria realizar o cadastro real dos terrenos particulares e do Estado.
Para além do cadastro seria possível verificar quantos foram os que receberam altos subsídios para cultivar, mas que somente construiram palacetes e aqueles que recebem gasóleo agrícola, mas que não têm terras, ou aqueles que recebem gasóleo que chega para as suas terras e as do vizinho.
Para alem disto seria ainda possível verificar todos os que possuem terrenos mas que os trazem de renda, não passando recibos dessas mesmas rendas, logo não declarando esses valores nas suas contribuições.
Mas não eram só os particulares que seriam observados. O Estado também não poderia fugir às suas responsabilidades.
Espero que esta seja uma medida para merecer a atenção dos nossos governantes.

Porque será

Porque é que tem aparecido algumas cabeças pensantes viradas para o centro e para a direita a desejarem verem alterada a Constituição e tentando fazer ver os benefícios do sistema presidencialista?
Será que tudo isto é porque Cavaco vai à frente nas sondagens?

Como é triste

A Associação dos Professores de Português está contra o facto de o Governo não ter levado à avante a ideia de acabar com os exames de português no 12.º ano.
Fico perplexo perante tal facto.
Em primeiro gostaria de saber se a direcção da Associação questionou todos os professores de português? De certeza que não e isto porque falei com alguns que são favoráveis aos exames.
Em segundo gostaria de dizer à referida Associação que os alunos até escusavam de ter aulas de português. Aprendiam a nossa lingua somente por contacto com os outros e assim esta Associação escusava de existir e evitando assim a tomada de posições deploráveis.

16 de dezembro de 2005

Ainda a bebé

De repente, vá-se lá saber porquê, o Hospital de S. Teotónio em Viseu é igualmente acusado de não ter feito tudo pela bebé.
Quem a tratou, quem a internou, quem chamou a atenção da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Viseu, vê-se agora igualmente promovido a "arguido".
É claro que arguidos somos todos nós. É a sociedade.
E porquê? Porque a "malha" de vigilância que colocamos sobre as nossas crianças é demasiado larga bem como a nossa exigência sobre os organismos que devem velar pelas crianças é demasiado pequena.
Fossemos nós mais conscientes dos nossos deveres e não haveria caso Casa Pia e outros.
Este caso, pela violência que encerra, pela idade da bebé, por a origem da violência cobarde e ignóbil ter sido nos progenitores, deverá fazer-nos reflectir no futuro não das crianças, mas de toda a humanidade.
Que o sofrimento da Fátima não seja em vão. Pensemos e repensemos o caminho que queremos trilhar.
Mas entretanto e enquanto reflectimos castiguemos a cambada de inoperantes que permanece sentada na referida Comissão de Viseu e em muitas outras que existem por este país fora.

Casa Pia

Continuemos para bingo.
Após ter mostrado aqui a minha indignação relativamente à transcrição de algumas escutas telefónicas feitas a Ferro Rodrigues para o processo em questão, é hoje a vez de me insurgir com igual facto só que desta vez ocorrido com Paulo Pedroso.
Em causa estão SMS trocados entre Paulo Pedroso e a sua namorada Ana Catarina Mendes, igualmente deputada do PS.
Analisados esses SMS verifica-se que na sua maior parte eles são unicamente troca de mensagens amorosas entre o casal.
Sendo assim o porquê de Rui Teixeira as ter validado?
Porque é que quando foram analisadas pelo Procurador do Ministério Público (organismo dependente de Souto Moura) não foram pura e simplesmente apagadas?
É certo que o processo ainda está para lavar e durar, mas julgo que no final, todos nós somos credores de algumas explicações por parte quer do Ministério Público, quer de Souto Moura e explicações que digam directamente respeito a este constante violar da privacidade de cada um e não do processo em geral, porque desse, sinceramente não espero mais nada.

Pasmem senhores, pasmem

Leiam e pasmem, porque foi precisamente isso que me aconteceu.
http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=184834&idselect=11&idCanal=11&p=94

15 de dezembro de 2005

Felizmente alguém ainda pensa

Educação: Ministério decide manter obrigatoriedade do exame de Português do 12º
Lisboa, 15 Dez (Lusa) - O Ministério da Educação (ME) decidiu hoje manter a obrigatoriedade do exame nacional de Português em todos os cursos gerais do 12º ano, acolhendo assim a recomendação expressa no parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE).
Segundo disse à Agência Lusa fonte oficial do gabinete da ministra da Educação, a tutela desistiu da intenção anunciada na semana passada de acabar com o carácter obrigatório da prova em todos os cursos orientados para o prosseguimento de estudos, à excepção do de Línguas e Literaturas (antigo agrupamento de Humanidades).
Deste modo, todos os alunos do 12º ano que frequentam os cursos gerais terão de realizar exame nacional à disciplina, independentemente da área em que estão.
Além do Português, os estudantes terão ainda de fazer exame às três disciplinas nucleares da vertente que escolheram, realizando assim quatro provas e não três, como a tutela inicialmente propunha.
No parecer hoje divulgado, o CNE rejeita que o exame de Português deixe de ser obrigatório em todos os cursos gerais e recomenda, neste caso, a manutenção das normas em vigor.
"Como o CNE recomenda a manutenção do [exame nacional] de Português, o ME decidiu manter a prova, substituindo a Filosofia pela terceira disciplina nuclear que até agora não estava sujeita a exame", explicou à Lusa fonte do gabinete da ministra.
O Ministério decidiu, no entanto, não aceitar a recomendação dos conselheiros quanto ao momento em que as novas regras devem entrar em vigor, mantendo, assim, a intenção de aplicar as alterações já este ano lectivo, no caso dos alunos do 11ºano que estão a preparar-se para fazer dois exames (Filosofia e uma disciplina bienal).
De acordo com o ME, é importante que as alterações sejam já postas em prática no caso destes alunos, abrangidos pela reforma introduzida pelo ex-ministro da Educação David Justino, de modo a "estabilizar o modelo".
No parecer, o CNE defende que as novas regras não devem entrar em vigor este ano lectivo, mas aplicar-se apenas aos alunos que frequentam actualmente o 10º ano.
à excepção do caso do Português e do momento de entrada em vigor destas alterações, os conselheiros acolheram a globalidade das propostas do ME, nomeadamente quanto ao facto de os alunos dos cursos tecnológicos e artísticos especializados deixarem de ser obrigados a fazer exames no final do secundário, a não ser que queiram candidatar- se ao ensino superior.
"O ME congratula-se com o parecer que acolhe o critério de que a avaliação externa deve centrar-se nas disciplinas nucleares e que aceita também as propostas relativas aos cursos tecnológicos e artísticos. Estas duas questões vão na orientação certa, no sentido de separar a conclusão do ensino secundário do acesso ao ensino superior", adiantou a mesma fonte.
JPB.
Lusa/Fim


Assim que tive conhecimento fiz questão de a transpor de imediato para este espaço.
Felizmente que ainda existem algumas cabeças pensantes que não embarcam em idiotices primárias.
A ideia, só por si abjecta, caiu por terra. Os exames de português continuam.
Abaixo o facilitismo.
Se com exames temos o que temos o que seria sem eles.
No que respeita à filosofia é outra questão e prometo voltar a ela, porque não é líquido que o seu desaparecimento seja benéfico.
Mas lá irei.
Para terminar deixo-vos um texto maravilhoso.
Leiam, interpretem, usem-no até à exaustão
http://web.ipn.pt/literatura/letras/ensaio59.htm.
"Voto piedoso"

O debate entre Soares e Alegre para as presidenciais não era tão só e apenas mais um debate.
Em confronto estavam dois homens com um passado e um presnte comum: o PS.
Depois de um seco cumprimento de circunstância, assistiu-se a uma primeira parte viva, onde Mário Soares fez valer a sua experiência de "animal político".
A segunda parte, mais incisiva sobre aspectos concretos foi avançando para a monotonia até que e a propósito do desemprego, Soares tomou fôlego e foi avançando impiedosamente.
A propósito do desemprego, Soares disse que falam todos, mas isso não passa de "um voto piedoso" - "o Presidente pode criar empregos? Pode obrigar o Governo a fazer esta ou aquela lei? ". Alegre bem contrapunha que, embora não tivesse sido PR, tinha experiência política. Novamente Soares foi mordaz "foi, brevemente, secretário de Estado e, depois, nunca mais quis entrar num Governo".
Mas o melhor de Soares e o pior de Alegre ainda estava para acontecer.
Eis quando a propósito da privatização da água Alegre disse que, em última instância, se estivesse em causa essa matéria, poderia dissolver o parlamento.
Aqui Soares não perdeu tempo e lembrou que "essa bomba atómica constitucional" deve ser usada com muita parcimónia e, no caso do eleitorado não dar razão ao PR este só tem um caminho a seguir: a demissão.
Aqui, quer queiramos quer não, foi a voz da experiência a vir à tona.
Percebeu-se que a partir daqui nada será como dantes. E se Cavaco ganhar, vai haver estilhaços no Largo do Rato.

Ainda a bebé

A propósito do caso que ontem comentei deixo-vos dois artigos de dois jornais diários que merecem a nossa atenção:
http://www.asbeiras.pt/?area=saudedb&numero=28602&ed=15122005 e
http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=184733&idselect=9&idCanal=9&p=94

14 de dezembro de 2005

Novamente

Aqui estou de novo para falar do caso da bebé maltratada pelos pais.
Escutei com toda a atenção as palavras de Jeni Canha, médica do Hospital Pediátrico de Coimbra, prestadas no telejornal da SIC.
É impossível não ficar perturbado. As lesões são tantas e tão graves que nos deixam um misto de angústia, dor e revolta. Revolta que se acentua ao escutarmos as declarações da responsável pela Comissão de Acompanhamento de Crianças e Jovens de Viseu. Revolta que nos faz doer quando ouvimos que uma técnica e uma psicóloga visitaram a bebé dois dias antes de ela ser internada em Viseu e enviada para o Pediátrico de Coimbra, sendo que anteriormente tinhamos ouvido as declarações de uma médica.
Face disto tudo o sr. Ministro Vieira da Silva e o dr. Armando Leandro têm de actuar de imediato. Despedir de imediato os membros da referida Comissão, com instauração de processo disciplinar e o próprio Ministério Público deve acusar esses membros de omissão por negligência. E se a bebé falecer, faço ardentes votos de que isso não aconteça, a acusação deverá ser alterada para homicidio por negligência.
Para além disto os referidos membros deveriam ser obrigados a pagar uma indemnização à bebé, que seria calculada com base nas sequelas com que ficar.
Quanto à mãe, pouco me importa se é ou não débil mental, deve ser exemplarmente castigada conforme referi na crónica de hoje.

Amor é o que eles precisam
São piores que animais

Um homem de 22 anos, residente em Moselos, Viseu, foi detido pela Polícia Judiciária (PJ) e apresentado ao juíz, sob suspeita de ter violado e espancado a filha, de um mês e meio, que se encontra agora internada no Hospital Pediátrico de Coimbra em perigo de vida.
Mais tarde provou-se que não teria havido crime de violação, somente de maus tratos.
Se os animais irracionais protegem as suas crias até com a própria vida, como é que estes animais, racionais, fazem isto.
Este acto bárbaro e ignóbil não tem defesa possível. É um crime que deve ser castigado com o máximo que a lei permite, sendo que deve ficar expresso na sentença que nem por boa conduta podem ser libertados e mais, devem ficar junto com os outros presos, sem nenhum regime de excepção.
Também não esqueço a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco de Viseu. Não faço a mais pálida ideia de quem é que depende a referida Comissão, mas uma coisa eu sei, já tinham guia de marcha assinada e rubricada.
Aliás é confrangedor se analisarmos os casos em que, quer esta Comissão ou outras que tais, os menores em risco têm sentido na pele os enganos destes grupos (um caso que seja já fosse preocupante)
Há uns anos atrás uma criança foi retirada à família de acolhimento e devolvida aos pais, embora todos estivessem conscientes que era melhor a criança permanecer com a família de acolhimento.
Qual foi o resultado? O menor faleceu vítima de maus tratos por parte dos pais. Isto aconteceu em Coimbra. Raul é o nome do pai adoptivo do menor em questão.

Vamos lá ver se entendo

No julgamento do caso Casa Pia recorreu-se às declarações por videoconferência com a finalidade de não sujeitar as "vítimas" a estarem no mesmo espaço que os arguidos, para que não houvesse intimidações e para salvaguardar psicologicamente as "vítimas". E, posso estar enganado, que eu saiba a questão da videoconferência foi colocada pelo colectivo de juizes, pelas "vítimas" e seus defensores, pela Casa Pia e pelo Ministério Público.
Agora estou surpreso por 6 dessas alegadas "vítimas" estarem dispostas a sentarem-se nos bancos do tribunal para enfrentar Paulo Pedroso.
Então agora as intimidações e a salvaguarda psicológica, onde estão

12 de dezembro de 2005

Possivelmente o defeito é meu


Não descuro o facto de o defeito ser meu, mas mesmo assim faço questão de referir que não entendo a recusa dos sindicatos face ao novo projecto de lei que o Governo apresentou onde defende a tese de que os professores permaneçam na mesma escola durante três ou quatro anos.
Sempre defendi e muitos professores com quem falei são da mesma opinião que um dos grandes entraves ao normal funcionamento do sistema de ensino é a "espada de Dámocles" que pende sobre a cabeça dos professores no sentido de que estes face ao sistema de alteração anual estão longe de ver garantida a sua permanência, para além de que a alteração anual do método de estudo de igual forma não é benéfica para os alunos.
Sendo assim porquê a recusa face á permanência de, pelo menos, 4 anos no mesmo local?
Há algo que me escapa e eu não percebo o quê!

Sem rei nem roque

A notícia é nua e crua.
Leiam em http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=184351&idselect=11&idCanal=11&p=94.
E no final da leitura digam lá se não deveriam ser os culpados a pagar do bolso deles.
Enquanto os culpados dos actos de má gestão, governação e outrosque tais não sentarem o cu no mocho e não pagarem do bolso deles as asneiras que cometeram e os prejuízos que originaram, não vamos a lado nenhum.

9 de dezembro de 2005

Cuidado sr. Professor

O Professor Cavaco Silva nas acções de candidatura tem referido que somente pretende ajudar o Governo e o país, até porque - diz ele - que havendo um governo maioritário existam níveis de confiança tão baixos.
Ou o candidato muda de discurso ou arrisca-se a que os portugueses, face às sondagens que demonstram que o Governo está a recuperar lentamente a confiança dos portugueses e a actuação do primeiro-ministro começa a consolidar-se numa tendência de subida, percebam que não precisam da sua tão propalada ajuda.

Afinal eles são todos amigos

Ontem aconteceu o segundo debate para as presidenciais. Se bem que menos entediante, não deixou de mostrar que das duas uma: ou o modelo não presta ou afinal está tudo bem entre os candidatos e que as diferenças não são acentuadas quer na forma quer no conteúdo.
A continuarmos assim arriscamo-nos a que todos sejam eleitos e que ocupem a presidência à vez.

8 de dezembro de 2005


Faz hoje 25 anos que o mundo ficou em estado de choque, perante a notícia de que John Lennon tinha sido assassinado por um fã perturbado à entrada da sua casa em Nova Iorque.
O ex-Beatle ficou para a história como um ícone dos anos 60 e do pacifismo.

7 de dezembro de 2005

Vamos à justiça

Começa a ser recorrente ter de falar da justiça em Portugal.
Podia comentar as palavras proferidas ontem pelo sr. Procurador da República, mas seria uma perda de tempo, porquanto as suas palavras há muito que entram por um ouvido e saem por outro logo a seguir.
Vou falar de justiça, mas relativamente às escutas do caso Casa Pia.
Ficaram os portugueses ontem a saber, através de um jornal diário, que um militante do PS e também ex-Ministro da Justiça teve problemas de saúde e que foi sujeito a uma intervenção cirúrgica que lhe limitou temporariamente as capacidades de contenção urinária.
E os portugueses souberam tudo isto porque faz parte das escutas telefónicas feitas a Ferro Rodrigues e validadas pelo juiz Rui Teixeira que as achou importantes e as mandou apensar aos autos da Casa Pia.
Como todos compreendemos esta é uma matéria deveras importante para os referidos autos porque esclarecedora sobre a matéria de facto.
Não sei porquê mas estou a imaginar a satisfação de Vera Jardim ao ver devassado em público um assunto do seu foro privado e que só a ele, à sua família e, talvez, a alguns amigos diz respeito.
Isto não se prende com o cabal esclarecimento da verdade, isto é tão só uma grosseira violação da privacidade e um atentado ao direito às liberdades e garantias do cidadão.
Foi pena esta notícia não ter aparecido mais cedo, porquanto gostaria de ter visto este caso ser discutido no congresso da magistratura.
Mas o dr. Baptista Coelho ainda está a tempo de o comentar, aliás julgo ser imperioso que o faça. E já agora escusa de pedir escusa por ser um caso concreto e que está em julgamento, porque queiramos ou não este caso tem tanto a ver com o julgamento em questão, como eu tenho a ver com o que corre nas águas do rio Nilo.

Ainda a justiça

Leiam o excelente artigo de Sarsfield Cabral em http://dn.sapo.pt/2005/12/07/opiniao/impunidade.html.

Voltemos aos exames

Ao que parece sou o único, ou dos poucos que estão de acordo com a nâo existência de provas de Português e Filosofia.
Os professores das disciplinas em causa já deram o seu aval. Os sindicatos dos professores também.
Resta-me concluir que desditosa a pátria cujos filhos renegam a língua.

Voltemos também ao debate

Luís Delgado escreveu hoje sobre o debate Alegre versus Cavaco.
Em face do que foi voz corrente, parecia mal que ele destoasse do empate e por isso resolveu brindar com um esclarecedor 2-2. Mas porque a sua consciência integralmente devotada a Cavaco, não parava de lhe chamar traidor, resolveu, de forma ardilosa, entregar a vitória a Cavaco Silva
Leiam o artigo em
http://dn.sapo.pt/2005/12/07/opiniao/cavaco_2_alegre_2.html e divirtam-se.

Termino como comecei: justiça

Não pode passar em claro o editorial do DN de hoje, por isso leiam em
http://dn.sapo.pt/2005/12/07/editorial/souto_moura_e_socialistas.html

6 de dezembro de 2005

Atinem senhores, atinem

Foi hoje notícia no “Público” de que o Ministério da Educação quer reduzir o número de exames nacionais que os alunos têm de fazer no final do ensino secundário. A proposta apresentada prevê que os alunos façam apenas três provas de avaliação externa e que o Português e a Filosofia deixem de ser obrigatórios para todos os cursos. No que concerne ao de Português, ele só seria obrigatório para os alunos de Línguas e Literaturas.
Justifica o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, que “o objectivo [desta proposta] é centrar os exames nas áreas nucleares dos cursos e fazer com que a conclusão do secundário e o acesso ao ensino superior sejam dois momentos diferentes”.
Perante isto deixe-me perguntar-lhe, sr. Secretário de Estado, há quanto tempo está afastado do contacto directo com a leccionação, se é que alguma vez esteve? Há quanto tempo não corrige um teste ou um exame, sejam eles do secundário ou do superior?
Estou em crer que está afastado destas lides há demasiado tempo.
É público e notório que o grande problema do ensino em Portugal, não está nesta ou naquela disciplina, em serem cinco ou seis exames e outras questões que tais. O problema é muito mais vasto.
O secretário de Estado saberá melhor do que eu, por isso é que ele ocupa a pasta que ocupa e eu sou um cidadão comum, que a iliteracia é o calcanhar de Aquiles que afecta fortemente a sociedade portuguesa, sendo que essa palavra significa, segundo o dicionário da Porto Editora, «1. dificuldade em ler e interpretar, e escrever; 2. falta de conhecimentos considerados básicos; analfabetismo.».
E este "calcanhar de Aquiles" não afecta somente uma faixa etária da nossa sociedade, ele atravessa-a diametralmente.
E isto porquê? Não só porque se perdeu o contacto com a leitura e, por arrasto, a capacidade interpretativa, sendo que a formação a nível da Língua Portuguesa se foi deteriorando.
Não se duvide de que os problemas que se verificam na Matemática são exclusivos da Matemática como ciência propriamente dita. Uma grande percentagem dos problemas, talvez mesmo a maior percentagem, fica a dever-se à incapacidade dos alunos na interpretação do que lhes é pedido. Citei a Matemática, mas com as outras áreas passa-se a mesma coisa.
É por isto que eu estou contra o Ministério acabar com os exames de Português. Ao invés o Ministério deveria fazer tudo para incrementar o ensino do Português e fazer entender aos alunos de que é uma disciplina fundamental seja em que curso for e que como tal deverá estar sujeita a exame.
A menos que o Estado esteja interessado na criação de autómatos, julgo que é um projecto que deverá ter como destino o cesto dos papéis.

Ainda a Educação

Ainda a guerra do crucifixo não terminou (basta ler os artigos de opinião nos diversos jornais) e já outra se perfila no horizonte. Estou a referir-me aos manuais escolares.
Como todos sabemos o livro escolar é um mercado muito apetecido, sendo que algumas editoras nascem e vivem somente do livro escolar.
O que tem acontecido ultimamente é que a vertente economicista se sobrepôs à vertente formadora, o que está errado porquanto deveria prevalecer sempre o inverso.
E não estou a falar de cor.
Tomemos como exemplo os livros do ensino recorrente por unidades capitalizáveis editados pelo Ministério da Educação. Se fossem sujeitos a uma comissão de certificação, estou certo de que eram chumbados na íntegra, tão maus eles são (deixo de fora o aspecto gráfico, fico-me só pelo conteúdo).
Avancemos com mais um exemplo. Literatura Portuguesa no Mundo. Dicionário Ilustrado de Célia Vieira e Isabel Rio Novo da Porto Editora. No I volume (de A a Azevedo) na entrada Abelha na Chuva, Uma (pág. 16) na 3.ª linha diz-se: "... o casal Leopoldina e Álvaro...", claro que as autoras se devem estar a referir a Álvaro Silvestre, comerciante e lavrador, e D. Maria dos Prazeres Silvestre, descendente dos fidalgos da Casa de Alva, arruinada. Leopoldina, que eu me lembre só se for a do mundo dos brinquedos do Continente. Mas atenção que esta obra tem mais. E não é uma obra qualquer. Trata-se de um acompanhamento fundamental para os alunos de Literatura.
Isto são só dois exemplos. Se vasculharmos os manuais escolares encontraremos muitos mais e os docentes sabem bem do que falo (estranho que ainda não ouvi da boca deles nenhum comentário sobre este assunto).
Por isto tudo venha a certificação dos manuais escolares e depressa.
O projecto está em http://www.sepleu.pt/outros/manuais_anteprojecto.pdf

Finalmente

Por fim uma observação muito simples sobre o primeiro debate para as eleições presidenciais.
Só um excesso de boa vontade poderá chamar ao que ontem aconteceu um debate. Para mim tratou-se de um quase num monólogo civilizado, uma conversa cordata e cautelosa, em que sobre a maioria dos temas, os dois candidatos estiveram de acordo.
Manuel Alegre teria tudo a ganhar em provocar a ruptura em temas específicos mas nunca o fez. Alegre foi cordato e respeitoso, politicamente correcto, tendo desperdiçado uma boa oportunidade para se afirmar como o candidato da esquerda.
Por certo que Soares deve ter dado pulos de satisfação ao romantismo argumentativo de Alegre.
Posso-me enganar, mas Manuel Alegre perdeu ontem a sua hipótese de ir à segunda volta.
Cavaco apresentou-se como o profissional, pleno de serenidade e cultivando o seu habitual estilo presidencialista. Vestiu mais uma vez a capa da humildade querendo com isso retirar espaço de manobra aos que o acusam de prepotente e autoritário.
Resumindo: Cavaco preparou e Alegre participou no monólogo civilizado que o primeiro queria e acabou por conduzir conduziu.

4 de dezembro de 2005

Não estou a perceber

Desde cedo venho dizendo que os candidatos à Presidência da República não me entusiasmaram nem entusiasmam. No entanto via em Manuel Alegre uma voz livre capaz de congregar toda a esquerda em seu redor. Com o avançar da pré-campanha fui perdendo a ilusão que criei. Foi uma falsa esperança.
As frases que lhe tenho ouvido deixam-me pasmo de espanto.
"Seguidismo, aparelhismo e carreirismo", "vejo à frente dos partidos gente muito medíocre que nunca fez nada pela democracia, enquanto fora dos partidos há pessoas de grande qualidade de que o País precisa", "só sou candidato a Presidente da República", "em caso de passagem à segunda volta, podem dormir descansados, pois não sou candidato a secretário-geral de nada", "não digo que só estou a travar fulano tal, porque esse é um erro que a esquerda comete, é preciso que se diga que eu estou nisto por um projecto concreto, por entender que o Presidente da República tem de manter a saúde e a decência da democracia", "há mais democracia para além dos partidos", "a minha esquerda é a esquerda dos valores, não é a esquerda dos interesses, porque não estamos aqui para defender quaisquer capelinhas ou directórios".
Estas frases e outras transportam-me para um tempo distante. Um tempo em que Manuel Alegre não foi cabeça de lista às legislativas pelo círculo de Coimbra e a "guerra" que daí nasceu.
Gostaria que Alegre tivesse seguido outras vias. Esta sua atitude faz-me lembrar o populismo fácil de alguns.
Para sermos coerentes julgo que as nossas palavras devem reflectir os nossos actos.
E ilustrando o que acabo de dizer deixo-vos o último parágrafo de uma notícia do DN de hoje, que reza assim:
"...
Mas a visita a Leiria revelou as duas faces de Manuel Alegre o orador, na esteira dos velhos republicanos cultos, crentes, em que "a palavra pode mudar a vida", citando Rimbaud, e o candidato avesso aos contactos. Nos 600 metros que percorreu entre o restaurante e a inauguração da sede local, Alegre cumprimentou apenas três pessoas. "

É verdade que uma imagem vale mais que mil palavras, mas há palavras e palavras...

2 de dezembro de 2005

É pena

É com profundo sentimento de tristeza que vejo o candidato Manuel Alegre a falar no "seguidismo, aparelhismo e carreirismo" que minam os partidos.
O facto de não ter sido o candidato apoiado pelo partido não se pode traduzir nestes pseudo-ataques aos partidos. E digo isto porquê? Porque fica a ideia de que a sua campanha é um ajuste de contas. E se é verdade que no início o apoiava inteiramente, hoje tenho algumas reservas, face à sua atitude.

1 de dezembro de 2005

Hoje é o Dia Mundial da Lutra Contra a SIDA, por isso hoje apenas apresento duas imagens e no meio delas um texto que me chegou ontem po mail.




A associação "Abraço" recebeu 30 meninos com HIV. Estamos a necessitar de roupa para rapariga (qualquer idade) e para rapaz precisamos dos 6 aos 14 anos para este projecto (trinta crianças a cargo). Se quiserem colaborar contactem se faz favor para: Maria José Magalhães Telef.: 213 974 298(Associação "Abraço") Se não puderem ajudar pelo menos passem a mensagem para os vossos contactos, por favor, não custa nada e pode estar a fazer adiferença. Obrigado!!!

30 de novembro de 2005

Está tudo doido

O caso GALP/ENI está longe de atingir o fim, faz-me mesmo lembrar aqueles jogos de futebol que são decididos por grandes penalidades. Para já estamos no prolongamento.
Ao que parece o grupo italiano desta vez foi demasiado longe, tendo, no dizer do administrador executivo da GALP, copiado o plano estabelecido pela empresa portuguesa.
Julgo que chegámos a um ponto sem retorno, que o mesmo é dizer só uma coisa interessa e importa e essa coisa é tão só a data em que os italianos fazem as malas, tudo o que seja para além disso é pura especulação com folclore à mistura.
Mas no meio disto tudo duas coisas há que me fazem alguma confusão.
A primeira é que se fosse ao contrário estou crente que o governo italiano já teria resolvido a questão, sendo que a resolução tinha passado por mandar os portugueses dar uma volta ao bilhar grande e isso tinha acontecido no final do tempo regulamentar, se não mesmo no fim da primeira parte.
Por isso não percebo o porquê de tanta cerimónia por parte do nosso governo.
A segunda prende-se com o facto de não ter ouvido da parte dos partidos na oposição qualquer referência a este caso. Estamos ou não perante uma questão de interesse nacional? Se estamos, e não há a menor dúvida que sim, porquê o PCP, o PSD, o CDS/PP, o Bloco, sei lá mais quem não vieram já expressar o seu apoio ao governo? Ou será que os pactos de regime são só para matérias que lhes possam trazer benefícios?

As escutas

Nunca aqui me referi directamente ao processo Casa Pia porque acho este processo demasiado complexo e cuja verdade estará demasiado longe quer para mim quer para a maioria dos portugueses. Após este tempo todo acreditem que não sei quem são os arguidos ou as vítimas. Não sei se há presentes que deviam estar ausentes e se há ausentes que deviam estar presentes. Uma coisa eu sei: para além do muito fumo que se tem lançado um culpado existe (no meu ponto de vista é claro) e é real. Trata-se da Casa Pia. A instituição foi incapaz de tomar conta dos menores que tinha à sua guarda.
Mas este texto não se prende com o processo em si mesmo, tem sim a ver com o que apareceu ontem num determinado jornal. Trata-se de escutas realizadas e posteriormente validadas no processo, escutas essas que, pelo que foi transcrito, são meramente pessoais e irrelevantes para o processo.
Se as escutas são irrelevantes para o processo porque é que nele figuram? Com que direito se mete ao barulho alguém que actuou num gesto de amizade e/ou de solidariedade?
Espero sinceramente, e sem fazer cavalo de batalha da tese conspirativa, que isto não seja encomenda de ninguém.

E por falar em políticos

Não entendo, nem aceito, as faltas de Manuel Alegre à votação do Orçamento de Estado. Se não se quer comprometer com este orçamento e porque está em campanha só terá uma coisa a fazer: pedir suspensão do mandato, quanto mais não seja em prol da tão propalada renovação dos políticos que tantas vezes tem servido de justificação para a sua campanha.
Mas o pedido de suspensão não deve ser somente para Alegre.
Que eu saiba nenhum dos candidatos presidenciais e ao mesmo tempo deputados são omnipresentes, portanto ou fazem campanha ou estão na Assembleia.

70 anos

Fernando Pessoa faleceu faz hoje 70 anos. E porque a melhor forma de homenagear um escritor é lendo o que ele escreveu ou escreve, deixo-vos alguns poemas.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa, Cancioneiro


VII - Da Minha Aldeia

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos

Lídia

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.

Ricardo Reis

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos

29 de novembro de 2005

É impossível deixar passar em claro o artigo que Eduardo Prado Coelho escreveu no “Público” e que tem por título:

Precisa-se de matéria-prima para construir um País

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler" e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte...Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... MEDITE!

Infelizmente e embora discorde de uma ou duas apreciações, sou forçado a concordar com a ideia global que nele está inserta.
Este país

Estava Portugal sossegado assistindo aos embates desportivos, às manifestações corporativas, a uma corrida eleitoral sem intervenientes interessantes e preparando um Natal mais apertado quando, de repente e como se de uma bomba se tratasse, caíu "em cima da mesa" a questão dos crucifixos nas escolas.
Começou de imediato o "tumulto". Padres, bispos, alguns candidatos presidenciais, associações de pais, associação das famílias numerosas (julgo ser este o nome - e já agora isto é o quê!?), professores, enfim toda uma vasta pléiade de pessoas se meteu ao barulho dando conta do seu sim e do seu não a esta medida, que, ao que parece, resulta de uma queixa da Associação República e Laicidade (a carta e o documento que a acompanhou podem ser lidos em http://www.geocities.com/CapitolHill/Senate/4801/Comunicados/ME.htm e http://geocities.yahoo.com.br/patriciasg1610/RL-repertorio-1.pdf).
Somente num país como o nosso é que tal assunto pode receber os epítetos que recebeu (inadmissível, uma vergonha, querem encurralar a Igreja, etc., etc.), porque num outro qualquer que tenha a nossa Constituição isso teria sido um facto banal. Mais. O candidato Cavaco Silva sustentou agora que era inadmissível que isto tivesse acontecido, mas disse-o somente agora que está em campanha, porquanto não me lembro de ter ouvido da sua boca qualquer reacção ao documento que preconizava isto mesmo e que foi emanado pela Provedor de Justiça em 1999, Menéres Pimentel (actualmente presidente da Comissão da Liberdade Religiosa) quando, na sequência da queixa do pai de um aluno, endereçou a uma escola lisboeta uma vigorosa recomendação no sentido da retirada dos crucifixos e considerando mesmo a sua presença em escolas públicas "uma clara ilegalidade com a qual é preciso acabar".
Mas enfim, este é o país que temos, onde o importante é sempre suplantado pelo acessório.

Tolerância

E quanto a tolerância deixo-vos um texto da jornalista Fernanda Câncio e inserto no DN de hoje que merece não só uma leitura atenta, mas igualmente uma reflexão cuidada. Aqui vai:

"Escola católica despede grávida solteira

A Igreja Católica americana enfrenta mais um escândalo, desta vez relacionado com o despedimento de uma professora que engravidou fora do casamento.

Michelle McCusker, de 26 anos, dava aulas às crianças mais novas de uma escola católica, quando engravidou de uma relação ocasional. Decidindo levar a gravidez a termo, avisou os seus superiores. Dois dias depois, foi despedida. Um processo contra a diocese de Brooklyn, à qual a escola pertence, foi instaurado esta semana por uma organização de defesa dos direitos civis.
A diocese é acusada de violar a lei federal que proibe a discriminação de grávidas e o tratamento desigual em função do género, alegando que Michelle só foi despedida por ser mulher, já que se fosse homem seria impossível saber se tinha tido sexo fora do casamento.
Uma acusação que a diocese rejeita, alegando que os professores de uma escola católica estão obrigados a assumir os ensinamentos da Igreja em palavras e acções e que é um direito da dioces e ensinar esses valores nas suas escolas e exigir aos professores que os respeitem. "A ideia de que a Igreja está a discriminar uma mulher grávida porque é mulher é ridícula, porque é óbvio que os homens não engravidam", disse, a propósito, um porta-voz da Liga Católica. "Esse é um problema a discutir com a Natureza, não com a Igreja".
Para a Liga Católica, o que está em causa é o exemplo moral - quando uma mulher engravida fora do casamento isso é visível, e admitir isso perante as crianças é assumir que está certo. Uma asserção à qual Michelle McCusker e os seus defensores respondem com uma acusação de hipocrisia "Se ela, em vez de ensinar, fosse uma aluna de uma escola católica e estivesse nas mesmas circunstâncias, as autoridades eclesiásticas teriam feito tudo para a convencer a manter a gravidez. Mas como empregadoras, apesar de toda a propaganda pró-criança e pró-família, despediram-na", diz um membro da organização Católicos pela Livre Escolha. Mc Cusker vai mais longe "Se eu tivese abortado, nada disto teria acontecido, eles nunca saberiam.""
Estamos conversados meus senhores.

Vejam esta pérola

"À falta de assunto, alguns políticos, partidos e comentadores estão muito preocupados com a passagem de aviões da CIA por território nacional, e, em alguns casos, com a sua aterragem em aeroportos, supondo-se que para reabastecimento. Há fotografias, filmagens, e um sem-número de pormenores que dão à história um conteúdo interessante. É da época.
Vamos por pontos alguém imagina, mesmo que por alto, quantos aviões circulam todos os dias, ou até horas, fretados por vários serviços secretos (e não estamos a falar de polícias políticas e quejandas...), por esse espaço fora, de um lado para o outro? Não devem ser poucos, e talvez a CIA faça como os serviços britânicos, franceses, alemães, israelitas e sei lá que mais. Alguém, por acaso, viu que esses aviões levam e trazem prisioneiros ou membros da Al-Qaeda ou de outros grupos de terroristas? E mesmo que os transportem, qual é o crime?
A CIA, por enquanto, é uma agência de informações do mais democrático de todos os países, onde o escrutínio dos suas instituições, abertas e secretas, é feito diariamente, ao milímetro, por dezenas de grupos independentes, Congresso, comissões, e uma imprensa com um poder inigualável no mundo.
É do conhecimento público que muitos dos prisioneiros de grupos terroristas são transportados para a base de Guantánamo, em Cuba. Diz-se, mas essa é uma questão diferente dos voos da CIA, que esses terroristas são torturados e maltratados, mas muitos congressistas da oposição já visitaram o local, e nada disso foi dado como certo.
É conveniente, no entanto, que maiores investigações se façam nesse domínio. A questão que preocupa alguns partidos nacionais, contudo, é se alguns aviões fretados pela CIA aterram ou passam por território nacional. E então? Será que na nossa pequenez ainda temos a ilusão de pensar que não existe um vaivém permanente, com aviões civis ou militares, que transportam dezenas de coisas, incluindo agentes, e não prisioneiros, todos os dias do ano? Será que os portugueses pensam, ou acham, que não existem outros meios e rotas para levar e trazer? Haja pachorra."
Este texto tem por título "Os aviões da CIA", foi escrito por Luís Delgado no DN de ontem.
Realmente numa coisa ele tem razão: haja pachorra... mas para o aturar.